VEJA 
www.veja.com
Editora ABRIL
edio 2345 - ano 46  n 44
30 de outubro de 2013

[descrio da imagem:  cachorro da raa beagle, deitado, com a cabea apoiada na pata direita dianteira, olhando para frente]
O DILEMA DOS BEAGLES
AMOR SEM REMDIO
Ainda no d para fazer cincia sem que eles sofram, mas cada vez mais isso  intolervel.
Especial 17 pginas

[descrio da imagem: canto superior esquerdo, em primeiro plano aparecem cinco homens, com as mos direitas uma sobre a outra]
PETRLEO
O leilo de Libra no foi o ideal, mas as promessas do pr-sal ainda esto de p.

[descrio da imagem: canto superior direito, foto do rgo cardaco]
CORAO ABANDONADO
Pesquisa: as mulheres ignoram os sintomas do ataque cardaco.

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1# SEES
2# PANORAMA
3# BRASIL
4# ECONOMIA
5# INTERNACIONAL
6# ESPECIAL
7# GERAL
8# GUIA
9# ARTES E ESPETCULOS
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1# SEES 30.10.13

	1#1 VEJA.COM
	1#2 CARTA AO LEITOR  O ATIVISMO E AS LEIS
	1#3 ENTREVISTA  ALAN GREENSPAN  O REI DOS MERCADOS EST NU
	1#4 MALSON DA NBREGA  O BRASIL VAI VIRAR UMA ARGENTINA?
	1#5 LEITOR
	1#6 BLOGOSFERA
	1#7 EINSTEIN SADE  LESO DO JOELHO DE ATLETA

1#1 VEJA.COM

PROFISSES INUSITADAS
O setor de servios  o que mais emprega e, tambm, o que mais contribui para o crescimento da economia. O aumento da renda e a expanso da classe mdia fizeram com que novas (e curiosas) oportunidades de trabalho surgissem. Carreiras ultrassegmentadas se consolidam para atender s necessidades de uma populao que tem cada vez menos tempo para tarefas rotineiras, como fazer compras ou acompanhar o andamento da reforma da prpria casa. Reportagem do site de VEJA conta seis histrias de profissionais que precisaram se adequar  nova realidade do mercado de trabalho do Brasil  e tiveram sucesso.

JUDICIRIO FRANCS
O presidente do Conselho Constitucional da Frana, Jean-Louis Debr, tem feito mudanas profundas no Judicirio francs. Entre outras medidas, ele adotou a "questo prioritria de constitucionalidade", que permite ao Judicirio debater decises do Legislativo. "Estamos nos aproximando de pases como Brasil e Estados Unidos. A sociedade francesa no estava acostumada a questionar a deciso de representantes eleitos", disse Debr em entrevista a VEJA.

AMOR S ORQUDEAS
Os orquidfilos so considerados os nerds da jardinagem. Em geral, um grupo de pessoas obsessivas cujo prazer  cruzar plantas para obter flores diferentes cada vez mais belas e originais. Para conhecer melhor essa paixo, o programa O Jardineiro Casual esteve na Exposio Internacional de Orqudeas de Miami, a mais antiga e tradicional da Flrida. O resultado  uma srie de vdeos que o site de VEJA exibe a partir desta semana. 

DOR NAS COSTAS
H muitos tipos de dor nas costas. Alguns at podem parar de incomodar com o passar do tempo. No  o caso da hrnia de disco, que se caracteriza pelo desgaste de discos entre as vrtebras da coluna. Quando isso ocorre, h vazamento de um material gelatinoso, que pode comprimir as razes nervosas e provocar muita dor. Reynaldo Brandi neurocirurgio do Hospital Israelita Albert Einstein, ajuda a entender a doena e responde a dvidas no programa Pergunte ao Mdico.


1#2 CARTA AO LEITOR  O ATIVISMO E AS LEIS
[FOTO: Quem foi mais efetivo para acabar com a segregao racial nos EUA? Marshall ( esquerda), King (a direita) ou Malcolm X?]

     O que tm em comum os senhores cujas fisionomias ilustram esta pgina? Cada um  sua maneira foi expoente da luta contra o racismo nos Estados Unidos na segunda metade do sculo passado. A exemplo dos ativistas contemporneos que h poucos dias invadiram um laboratrio em So Paulo e roubaram cachorros usados ali para pesquisas farmacuticas, esses trs senhores estavam convencidos do acerto da causa pela qual lutavam. Dois deles, porm, Martin Luther King e Thurgood Marshall, sabiam que, por mais sublime que fosse sua luta, mais fortes suas convices e mais admiradas suas boas intenes, a vitria duradoura s chegaria pelo protesto pacfico e pela mudana das leis. Malcolm X era o oposto. Para ele, em favor da causa, era vlido recorrer a qualquer tipo de violncia e ato terrorista. No por outra razo, o legado de Malcolm X  desprezvel, enquanto Martin Luther King e Thurgood Marshall so universalmente reverenciados por terem mudado a realidade pacificamente. 
     Uma reportagem especial desta edio de VEJA esmia a maneira de pensar e agir dos militantes do movimento de defesa dos animais que invadiram o Instituto Royal. Ao se dedicarem a entender o que leva algum a atropelar as leis e ignorar as instituies para fazer valer sua viso de mundo, os reprteres foram fundo nas razes histricas e filosficas do que hoje se  chama "ativismo". A reportagem explica a necessidade do brao mais radical dos ativistas de buscar a exposio pblica pela quebra das normas de convivncia civilizada  e adverte que, ao contrrio do que se imagina, ao agir assim eles no apenas perdem a razo, mas a prpria eficincia da luta a que se dedicam to apaixonadamente. 
     Martin Luther King se imortalizou pela frase "Eu tive um sonho". Seu sonho era o da convivncia pacfica entre os filhos dos ex-escravos e os filhos dos ex-donos de escravos. Thurgood Marshall conseguiu, quando ainda era apenas advogado, o fim da segregao entre crianas negras e brancas nas escolas americanas. Bisneto de escravos, era um homem sbrio e contido, de quem se diz hoje que ''na luta pela igualdade ningum se igualou a ele". Vivemos um bom momento para lembrar a enorme valia da lio de King e Marshall de que grandes e decisivas vitrias so aquelas obtidas dentro das instituies, e no contra elas. 


1#3 ENTREVISTA  ALAN GREENSPAN  O REI DOS MERCADOS EST NU
O lendrio ex-presidente do Federal Reserve se esquiva de culpa pela bolha imobiliria e fala das dificuldades de conter o esprito animal dos investidores em tempos de euforia.
GIULIANO GUANDALINI

Alan Greenspan foi o rei dos mercados de 1987 a 2006, quando ocupou o cargo mais influente da economia mundial, a presidncia do Federal Reserve (Fed), o banco central americano. Durante o seu mandato, os Estados Unidos viveram um dos perodos mais duradouros de crescimento. Tambm foi nessa poca que se formou a maior bolha financeira da histria. Em O Mapa e o Territrio (Penguin Companhia das Letras), que chega s livrarias brasileiras em 5 de novembro. Greenspan, de 87 anos, faz sua anlise sobre os fatores que levaram  recente crise financeira e trata dos desafios para a recuperao econmica plena. O economista evita assumir responsabilidade direta pela formao da bolha, mas conta como seu pensamento evoluiu desde ento.

Como foi possvel ocorrer uma crise financeira de tamanha magnitude na economia mais avanada do planeta? 
Esse  o tipo de evento que ocorre uma vez no sculo. Algo assim s  possvel quando existe um perodo muito longo de euforia desmedida na economia. Lembre-se de que tivemos nos Estados Unidos a euforia da multiplicao e valorizao das empresas de internet, nos anos 90. Esse entusiasmo chegou ao fim em 2000, com o colapso das aes. As perdas financeiras foram colossais, mas o impacto na economia real foi modesto. A crise das bolsas de 1987, aquela da Segunda-Feira Negra, tambm ocorreu ao cabo de um longo perodo de euforia. Na crise mais recente, entretanto, a histria foi diferente, e, em retrospecto, s conseguimos perceber isso tarde demais. O colapso do que se chamou de bolha imobiliria se deu em um contexto de grande alavancagem (excesso de emprstimos dos bancos em relao ao volume de seu capital), levando  ruptura no sistema financeiro. Na crise das empresas de internet, havia muitas pessoas investindo em aes, mas as instituies financeiras no estavam alavancadas. As perdas ficaram restritas sobretudo a investidores individuais. A questo das hipotecas imobilirias foi bem diferente. 

Por qu? 
Assim que os preos comearam a cair, diversas instituies imobilirias e financeiras ruram. A debacle comeou a ser gestada em 2007. O clmax veio em 15 de setembro de 2008, com a quebra do Lehman Brothers. Houve uma reao em cadeia, com a desvalorizao de outras instituies. O capital total dos bancos era ento insuficiente para cobrir as perdas. Foi quando os governos agiram, colocando capital. Sem isso, a ruptura seria ainda mais dramtica. Um evento como esse s pode ser produzido durante um perodo prolongado de tranquilidade econmica. Foi o que tivemos nos Estados Unidos entre meados dos anos 80 at 2007. Se no fosse assim, nunca teramos atingido os nveis de endividamento e alavancagem que foram efetivamente alcanados. 

H quem afirme que os juros baixos do Fed, nos anos anteriores  crise, contriburam para a formao da bolha. Concorda? 
No existem evidncias de que isso tenha ocorrido. Escrevi um artigo para a Brookings Institution ("The crisis", 2010) em que refuto detalhadamente esses argumentos. 

O que poderia ter sido feito, ento, para evitar a crise ou ao menos mitigar os seus efeitos? 
A concluso, na minha avaliao,  que deveria ter ocorrido um aumento no capital mnimo exigido dos bancos (recursos que devem permanecer depositados como garantia para eventuais perdas). Mesmo hoje, precisa haver um aumento substancial. 

E isso no era discutido nos anos que antecederam a crise? 
Eu, particularmente, sempre fui favorvel a nveis mais elevados de capital. Mas a Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC, uma das agncias federais de fiscalizao do sistema financeiro americano), a responsvel por falar em nome dos demais reguladores sobre esse assunto, havia emitido um parecer, em 2006, indicando que os bancos possuam mais capital que o necessrio. Outros rgos internacionais tambm consideravam se no seria o caso de reduzir a exigncia. O assunto ainda  motivo de debate. Considero desejvel um aumento no nvel de capital. Mas isso certamente no  ponto pacfico nos Estados Unidos nem em outros rgos internacionais. 

Mas no foi possvel antever que havia algo de errado no sistema financeiro? 
No foi certamente algo que aconteceu do nada, de repente.  sempre muito difcil fazer uma regulao que evite ou diminua os riscos de um evento como esse sem afetar a economia, porque, obviamente, um aumento na exigncia de capital reduziria o crdito, diminuindo o ritmo do crescimento. 

Em 2008, em um testemunho histrico no Congresso, o senhor afirmou que estava em estado de "choque e incredulidade" diante do comportamento descuidado dos banqueiros, que punham em risco o prprio capital de seus acionistas. O senhor ignorava o nvel de risco das operaes? 
Sempre estive alerta para o fato de que nem sempre  correta a viso clssica liberal segundo a qual as pessoas, a longo prazo, agem sempre em benefcio de seu prprio interesse. Mas, como regra geral, na minha viso e na da maior parte dos economistas, aes irracionais so espordicas, meros rudos sem maiores repercusses nos modelos estatsticos. O meu choque se deu ao constatar que essa viso era falsa. O esprito animal de que falou John Maynard Keynes, e estamos aqui nos referindo essencialmente ao comportamento humano, tinha e tem de ser considerado nos modelos dos economistas. O medo, a euforia, as propenses humanas em geral so relevantes para a economia. O pnico  de longe a fora mais dominante e intensa. Um processo de euforia, originado em ambiente econmico favorvel, alimenta-se de si mesmo. Para minha surpresa, descobri tarde demais que, mesmo sendo muito complexo,  possvel prever a ocorrncia de bolhas. No conseguimos saber o momento exato em que elas vo estourar, mas  possvel erguer bandeiras de alerta e, quem sabe, evitar o pior antes que ocorra. 

O senhor agora  keynesiano? 
Li pela primeira vez a Teoria Geral de Keynes quando estava na faculdade. O modelo keynesiano funciona bem para a parte no financeira da economia. Nas finanas, funciona mal. So ideias instigantes em um livro de economia, mas no funcionam muito bem no mundo real. Muitos dos discpulos de Keynes tambm viram seus modelos falhar miseravelmente na crise. 

O sistema financeiro est mais seguro hoje, com as reformas feitas depois da ltima crise? 
Considero que uma nica coisa precisa ser feita: o aumento expressivo no capital dos bancos.  muito difcil corrigir falhas por meio de legislaes especficas. Tome o caso da lei Dodd-Frank, de reforma do sistema financeiro. Foi aprovada h trs anos e no comeou a funcionar propriamente at agora. A razo  que a avaliao dos congressistas errou o alvo. Temo que muitas das coisas que foram feitas no sejam necessariamente teis. Essa lei pode representar a maior distoro de mercado, induzida por regulamentao, desde o controle de preos e salrios no incio dos anos 70. As instituies devem poder investir o seu dinheiro onde queiram, desde que possuam o capital necessrio para cobrir as eventuais perdas. Ningum sabe antecipadamente quais investimentos sero lucrativos e produtivos, e quais sero txicos. A nica maneira de reduzir os riscos  aumentando o capital exigido dos bancos. 

Qual seria o nvel adequado? 
Para os Estados Unidos, estimo que seja 14% (14 dlares de capital prprio para cada 100 dlares em emprstimos). Atualmente, o nvel est em 11%. No fim de 2008, era de 9%. Se tivssemos tambm uma estrutura como no passado, em que os executivos eram responsabilizados pelos prejuzos, muitos danos seriam evitados. Nos anos 70, as grandes firmas de investimentos no emprestavam dinheiro da noite para o dia. Seus executivos eram muito cuidadosos. Cada scio arriscava o seu prprio capital, e isso os tornava muito conservadores. 

Qual a sua avaliao do atuai estado da economia americana? 
 razovel, mas h algo faltando. A fraqueza da economia americana, e em particular do mercado de trabalho, est no fato de no estarmos fazendo investimentos em ativos de longo prazo, como na infraestrutura. Isso precisa mudar quanto antes, porque no  uma situao sustentvel. 

No livro, o senhor mostra como o aumento das despesas do governo americano com benefcios sociais levou a uma queda na taxa de poupana, o que limitou os recursos para os investimentos e, ao final, reduziu o ritmo de avano na produtividade. Como ter polticas sociais e de redistribuio de renda sem afetar o aumento da produtividade? 
Esse  um problema com o qual depara, em algum momento, qualquer Estado de bem-estar social. Para minha surpresa, ao analisar os nmeros dos Estados Unidos nos ltimos cinquenta anos, cada dlar em aumento nos benefcios sociais levou  queda de 1 dlar na poupana total da economia. No momento, a poupana lquida (parte da renda das pessoas economizada depois de feitos os gastos) est prxima de zero. Se apresentamos ainda algum crescimento econmico  porque estamos fortemente calcados na poupana externa, dinheiro que vem do exterior. H limites para o Estado de bem-estar social. O crescimento anual dos gastos com benefcios tem sido de quase 10% ao ano, um nmero impressionante. Desde 1965, a participao dos benefcios subiu de 5% para 15% do PIB. O avano ocorreu tanto em governos democratas como em republicanos. Estamos sentindo hoje os sintomas dessa poltica.  o caso da grande batalha em torno do oramento no Congresso. Chegamos ao limite. Na minha avaliao e na de qualquer pessoa bem informada, inclusive o presidente dos Estados Unidos, o volume de benefcios tem de ser reduzido. Mas isso  politicamente muito difcil. Existem foras polticas poderosas em jogo. No sei como isso vai acabar. Gostaria de saber. 

Ao mesmo tempo, a desigualdade de renda vem crescendo, o que torna esse ajuste ainda mais difcil, no? 
Uma das grandes ameaas ao futuro dos Estados Unidos , seguramente, o aumento na desigualdade. A comisso bipartidria Simpson-Bowles chegou a um bom plano para equilibrar o oramento, mas parece que os lderes polticos no se importam com a questo. Enquanto isso, os recursos esto sendo usados para financiar o dficit do governo, o que diminui os investimentos, reduzindo a produtividade e diminuindo o bem-estar. Isso impacta tambm a inovao.  uma situao difcil. 

Qual a sua avaliao sobre a indicao da economista Janet Yellen para a presidncia do Fed? 
Ela , sem dvida, muito inteligente e preparada, ainda que nem sempre estivssemos de acordo. Trabalhei com ela por algum tempo no comit de poltica monetria do Fed.  uma boa economista, mas ter questes complicadas pela frente. 

O senhor tem acompanhado as notcias sobre a economia brasileira? 
O Brasil tem enfrentado alguns altos e baixos recentemente. A inflao causou certa preocupao. Penso que a taxa de juros foi reduzida um pouco abaixo do recomendvel, e agora, consequentemente, j voltou a ser elevada. O pas ainda paga o preo, em grande medida, pelo seu passado de caos inflacionrio. 

Autoridades brasileiras criticaram a guerra cambial e o tsunami monetrio que teriam sido causados pela poltica monetria expansiva do Fed e de outros bancos centrais. A queixa procede? 
(Risos) Tudo o que posso oferecer  minha simpatia. Quando eu estava no Fed, sempre tentvamos levar em conta os efeitos de nossas polticas no resto do mundo, particularmente sobre nossos parceiros mais prximos, e o Brasil  um deles. s decises monetrias sempre se seguiro repercusses polticas. O trabalho de um presidente de banco central  muito complexo.  


1#4 MALSON DA NBREGA  O BRASIL VAI VIRAR UMA ARGENTINA?
     Nos ltimos tempos, aqui e no exterior, piorou o sentimento em relao ao Brasil. A mudana se explica pela perda de dinamismo da economia  em grande parte por razes domsticas , pela queda da qualidade da poltica econmica e pelo excessivo intervencionismo estatal. O agravamento da gesto fiscal e a forte elevao da dvida pblica federal podem constituir o motivo para o rebaixamento da classificao de risco do pas. Sucedem-se reportagens negativas na imprensa estrangeira.
     "Quanto tempo a Venezuela levou para virar uma Cuba? Quanto tempo a Argentina levou para virar uma Venezuela? E quanto tempo vai levar para o Brasil virar uma Argentina?" Essa sucesso jocosa de perguntas, que circula por a, tem sua razo de ser. O governo d razo aos piadistas e aos que vem o risco de trilharmos o caminho da Argentina, que ruma para mais uma de suas recorrentes crises, se  que j no a vive. Nosso vizinho perdeu o acesso ao crdito externo  depois de um dos maiores calotes da histria , intervm abusivamente na economia, estatiza empresas, controla importaes, manipula ndices de inflao, intimida os empresrios. Um horror.  a volta do trgico populismo econmico latino-americano. 
     O Brasil est longe dessa situao, apesar da poltica fiscal que endivida excessivamente o Tesouro, usa malabarismos para fazer crer que cumpre metas e desfaz conquistas. Isso pode acarretar a perda do grau de investimento (a atual classificao de risco), o que reduziria a confiana no pas e aumentaria o custo da dvida pblica e privada. Felizmente, como se ver adiante, em algum momento essa poltica ser revertida. No h risco de calote na dvida pblica nem de crises do passado na inflao e no balano de pagamentos. 
 verdade que a inflao, j muito alta, deve  aumentar com o futuro abandono do lamentvel controle de preos de combustveis (gasolina e diesel), nibus, metr e trens. Acontece que dispomos de instrumentos de ao  corte dos gastos e atuao da poltica monetria  e de pessoal qualificado para us-los. Depende apenas de vontade poltica. O governo agir, pois o descontrole inflacionrio destruiria a popularidade da presidente. No h, portanto, como temer uma inflao argentina de 25% ao ano. 
     Quanto ao balano de pagamentos, erros de poltica econmica elevaram a vulnerabilidade do pas. A situao preocupa, mas no assusta. O regime de cmbio flutuante voltou a funcionar. Do passivo externo, metade  composta de investimentos estrangeiros diretos e de ativos financeiros, ambos denominados em reais. Se uma crise de confiana provocar fuga de capitais, a consequente desvalorizao cambial reduzir o valor em moeda estrangeira desses investimentos e as respectivas remessas. A outra metade  representada pela dvida externa (310 bilhes de dlares), hoje inferior s reservas internacionais (375 bilhes de dlares). O Brasil  credor externo. 
     Diferentemente da Argentina, onde inexistem instituies do quilate das brasileiras, estamos mais preparados para enfrentar turbulncias da economia mundial e para resistir, por certo tempo,  persistncia de equvocos da estratgia e da gesto do governo. Devemos isso  herana bendita advinda das reformas empreendidas antes da chegada do PT ao poder, as quais tiveram seguimento at 2006, quando foram interrompidas com a sada de  Antonio Palocci do Ministrio da Fazenda. 
     O risco do Brasil no  virar uma Argentina. Nosso problema  perdurar a mediocridade no desempenho da economia, resultante de uma poltica econmica orientada por vises ultrapassadas, por uma gesto fiscal desastrosa e por um intervencionismo ultrapassado. O que preocupa  a armadilha do baixo crescimento econmico que tudo isso montou. Conforta saber, como tenho aqui assinalado, que instituies brasileiras, a exemplo da imprensa, das crenas da sociedade, dos avaliadores de risco e do mercado, concorrero para provocar uma inflexo no modo de dirigir o pas. A realidade impor uma reverso de curso, o que vir por ao do prprio governo ou pela reao dos eleitores. O basta aos maus efeitos ao bem-estar poderia vir em algum momento atravs do voto.
MALSON DA NBREGA  economista


1#5 LEITOR
ARTISTAS CONTRA AS BIOGRAFIAS
Excelentes a capa e a reportagem "Pgina infeliz da nossa histria" (23 de outubro) que mostra a defesa da censura prvia pelos dolos da minha gerao (Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e Roberto Carlos) que querem, equivocadamente, proibir a publicao da biografia deles e, por analogia, de outros famosos. Inteligentssimo o texto "Detalhes nada pequenos'', que fala da garimpagem obsessiva de bigrafos mostrando-nos o "avesso do avesso" de personagens histricos, cujo texto nos remete ao livro Detalhes, do baiano de Vitria da Conquista (terra de Glauber) Paulo Csar de Arajo, uma sntese da vida e obra de Roberto Carlos.
BENJAMIN BATISTA
Presidente da Academia de Cultura da Bahia
Salvador, BA

Sou f incondicional de Caetano, Chico, Gil e Roberto Carlos, mas minha decepo  enorme... Lembro quanto esses meus heris lutaram contra a ditadura e a censura. Cad Roberto cantando para Caetano no exlio: "'Janelas e portas vo se abrir pra ver voc chegar"'; onde est Caetano gritando: " proibido proibir"; algum me fale do paradeiro de Gil lamentando o exlio e cantando: '"I don't want to stay here. I wanna to go back to Bahia". A nica alternativa  parodiar o grande Chico: "Hoje vocs  quem mandam. Fal, t falado. Mas amanh o sol vai brilhar e no pedir licena a nenhum de vocs".
FERNANDO DE SOUZA GRANATO
So Paulo, SP

Sou empresrio e assinante de VEJA h mais de quarenta anos. No incio da dcada de 70, fui diretor do Diretrio Acadmico da Faculdade de Filosofia, Cincias e Letras de Araraquara. O diretrio contratou em diversas ocasies os dolos Gilberto Gil e Caetano Veloso e outros para shows na cidade. Sucesso total, sempre. Depois dos eventos, normalmente amos com os msicos a uma chcara na periferia da cidade para celebrar, trocar experincias. Bebia-se, fumava-se maconha e o sexo sem compromisso era a regra. No entendo a defesa da censura feita por esse pessoal agora. A censura de qualquer tipo  igual a represso totalitria, e a democracia desenvolve mecanismos de compensao para os biografados que se sintam ofendidos.
RICARDO ALVES BASTOS
Dourado, SP

Que decepo! Meus dolos no so mais os mesmos. O que eles pregavam serve para os outros, e no para eles. Bando de hipcritas! 
MARIA DE FTIMA M. BRITO
Manhuau, MG

Nem compensa lamentar, porque isso tudo  uma melancolia, um vazio e uma decepo. D pena de Gil, Caetano e Chico. Deles, sim, como no? Mas, acima de tudo, dos fs brasileiros, que no mereciam ter de ver revelados os ps de barro de seus dolos.
DOCA RAMOS MELLO
So Sebastio, SP

A reportagem "Pgina infeliz da nossa histria" esqueceu de dizer que os artistas que querem censurar sua biografia precisam aceitar que a revelao ao pblico de fatos pregressos no vai denegrir a imagem deles, que j est consolidada. Quem j no cometeu algum deslize na adolescncia ou fez algo de que se arrependesse depois? Deixem publicar e sejam felizes!
AXEL HERBSTHOFER
Guaratinguet, SP

Acho injusto comparar a censura que os artistas defendem agora com a censura imposta pelos militares. So coisas diferentes.
OSNI ARALDI
Curitiba, PR

Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Roberto Carlos contriburam para o Brasil. No vejo por que serem expostos e dissecados publicamente de acordo com a vontade de profissionais.
BERNADETE MARIA NERY
Belo Horizonte, MG

 pena que esse episdio isolado venha denegrir a imagem e a biografia, autorizada ou no, de cada um dos grandes artistas.
JOS EDICLEI SILVA
Palmital, SP

Meu total apoio aos dolos que querem que sua vida pessoal seja preservada. Eles merecem a privacidade.
ANA MARIA C. FERRAZ DO AMARAL
So Paulo, SP

O fato de pases do Primeiro Mundo aceitarem a biografia no autorizada no significa que estejam certos. J erraram muito no passado sobre vrias questes.
MARCLIO MARINHO
Rio de Janeiro, RJ

Querer proibir a publicao das biografias  querer enterrar o passado. Como j disse o nosso '"rei" Roberto Carlos: "Se chorei ou se sorri, o importante  que emoes eu vivi". Para os abusos existe o Judicirio.
CARLA DE CARLI
Bag, RS

Quem no deve no teme!
MARCOS CZAR MELO DE MORAIS
Ananindeua, PA

Os dolos, de um modo geral e com excees, continuam os mesmos: admirveis nos palcos, obtusos e nada exemplares na vida real.
WILIAM TABCHOURY
Piracicaba, SP

ROBERTO ROMPEU DE TOLEDO
Muito oportuno o artigo "O livro do alferes" (23 de outubro), de Roberto Pompeu de Toledo. Em tempos de censura s biografias, o articulista nos prova que esse tipo de literatura deve ser assegurado e veiculado.
LUIZ CRUZ
Tiradentes, MG

LIBERTAO DOS BEAGLES
O argumento de que existe uma preocupao com o sofrimento dos animais  pattico, pois as experincias com produtos qumicos e os procedimentos invasivos praticados nesses laboratrios de pesquisas so verdadeiras torturas ("A libertao dos cachorrinhos", 23 de outubro).
HELOSA ARRUDA
Rio de Janeiro, RJ

Os ''ativistas'" que depredaram o centro de pesquisas em So Roque para levar os ces da raa beagle se esquecem de que os animais l estavam para tentar salvar vidas humanas.
EDUARDO SABEDOTITI BREPA
Curitiba, PR

Aqui, e em muitos lugares mundo afora, continuam achando "mais barato" torturar e matar animais do que investir em outros recursos, com resultados mais confiveis.
SNIA REGINA SACENTE
Cotia, SP

Qualquer ser vivo tem sentimentos.
VIVIANE WERNECK CAPODEFERRO
Rio de Janeiro, RJ

Ainda veremos mais demonstraes selvagens de ignorncia e falta de controle? Quantos desses jovens que se consideram bonzinhos com os animais j prestaram servio voluntrio em hospitais?
ARISTEU MONTE RASO
So Paulo, SP

LYA LUFT
Ler o artigo "'A bruxa nos relgios" (23 de outubro), de Lya Luft, foi um alento. Tambm acredito que a vida pode  e deve  ser vivida intensamente, sempre, independentemente das inmeras idades cronolgicas que temos. Que o acmulo de experincias no seja um fardo para termos e vivermos novas experincias. Ao contrrio, que seja um impulsionador para conhecermos novidades em todos os campos. Aprender sempre; isso nos faz viver profunda e intensamente, seja aos 8, 30, 50, 80 anos...
ALENCAR BURTI
Presidente do Sebrae-SP
So Paulo, SP

Persista at o fim. O maior fracasso  o desnimo.
MAURO PEREIRA VIANNA
Piracicaba, SP

Ouso discordar de Lya Luft. A sociedade atual, com seus valores em mutao, aliados ao uso viciognico da internet,  desagregao familiar, ao surto de ansiedade em participar do mercado de trabalho, enfim, ao desejo de construir a prpria felicidade, induz os seus membros  solido, ao individualismo,  incapacidade de ouvir e de se pr no lugar do outro, causando, portanto, naqueles que detm um mnimo de sensibilidade, a sensatez de uma culpa tardia.
ELIANE MARIA GONALVES BOTELHO
Joo Pessoa, PB

Sou mdico h 28 anos e costumo dizer aos meus pacientes que cada ano vivido tem o seu nus e o seu bnus. Tente olhar mais para o que voc obtm de bom com a idade!
JOS REINALDO BRESEGHELLO
Goinia, GO

JESUS
A reportagem "Dai a Jesus o que  de Jesus'" (23 de outubro) vem corroborar meu pensamento de que a iconoclastia na esfera hagiolgica  garantia de sucesso absoluto no mercado editorial. Quando a vtima  Jesus Cristo, esse rendimento  potencializado. Sandices que afirmam que ele foi casado, teve filhos, era mulher e, agora, que no existiu, batendo de frente com os textos sagrados, so muito lucrativas para quem as escreve.
RAIMUNDO FLORIANO DE ALBUQUERQUE E SILVA
Braslia, DF

Para o espiritismo, Deus  a inteligncia suprema, causa primria de todas as coisas. Jesus, filho de Deus,  o ser mais puro que at hoje habitou o planeta Terra. Todos somos filhos de Deus, nosso pai celestial, entre eles Jesus, o Cristo, cujo ensinamento mximo no deixa margem a dvida e est contido na milenar, clebre e sinttica sentena que resumiu toda a lei e os profetas: "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao prximo como a si mesmo"'.
ANTNIO MORIS CURY
Curitiba, PR

FRANCIS MALLMANN
O chef argentino Francis Mallmann est de parabns pela coragem e pela independncia demonstradas na entrevista ''Na fogueira das vaidades" (23 de outubro). Mallmann disse o que muitas pessoas pensam, mas no externam. Ns, cariocas, estamos pagando cada vez mais caro por comidas cada vez mais sem identidade (para dizer o mnimo). Estamos sacrificando o paladar e o inexorvel prazer proporcionado por uma boa mesa para privilegiar shows de mgica, concursos de beleza com direito a espumas de no sei l o qu, tomates "esferificados" e coisas do gnero, alm de reconstrues absolutamente inteis de pratos que h dcadas j agradam a todos em sua forma original. Comemos pratos dos quais mal conseguimos nos lembrar no dia seguinte. Estamos nos distanciando daquelas sensaes propiciadas pela cozinha das nossas avs, to eterna quanto simples e  principalmente  despretensiosa. Ah, que saudade do cabelinho de anjo ao alho e leo da minha av Geny...
PEDRO BOUERI AFFONSO DE ALMEIDA
Rio de Janeiro, RJ.

FRANCIS FUKUYAMA
Excelente entrevista ("A construo da democracia", 23 de outubro). Espero que os candidatos ao prximo governo a leiam e faam uma reflexo crtica sobre a situao do Brasil.
ANTONIO CARLOS NOGUEIRA
Fortaleza, CE

STARTUPS
Muito interessante a reportagem Uma usina de talentos" (23 de outubro). O Brasil atravessa um momento de estabilidade econmica com muitas oportunidades para jovens empreendedores. Quem tiver o produto certo para atender a uma necessidade de mercado em grande escala vencer.
CARLOS WIZARD MARTINS
Presidente do Grupo Multi Educao
Campinas, SP

BRASIL
Sou holands, moro na Ilha de Bonaire, parte holandesa no Caribe, e leio VEJA regularmente. As reportagens e entrevistas so excelentes. VEJA est entre as melhores revistas do mundo. O Brasil  um pas de contrastes. Enquanto coisas boas pem o Brasil entre os pases mais desenvolvidos, as ms o deixam entre os atrasados. Tenho admirao pela indstria aeronutica do Brasil  produzindo avies excelentes que voam pelo mundo todo  e tambm por outros setores, como a limpeza de banheiros pblicos. Mas na coleta de lixo, infelizmente, o Brasil iguala-se a pases do Terceiro Mundo. O primitivismo desse tipo de coleta no pas para mim  totalmente incompreensvel. O Brasil copia tanta coisa ruim do exterior. Deveria copiar as boas solues de coleta de lixo.
JIRI LAUSMAN
Ilha de Bonaire

PARA SE CORRESPONDER COM A REDAO DE VEJA: as cartas para VEJA devem trazer a assinatura, o endereo, o numero da cdula de identidade e o telefone do autor, Enviar para: Diretor de Redao, VEJA  Caixa Postal 11079  CEP 05422-970  So Paulo  SP; Fax (11) 3037-5638; e-mail: veja@abril.com.br. Por motivos de espao ou clareza, as cartas podero ser publicadas resumidamente. S podero ser publicadas na edio imediatamente seguinte as cartas que chegarem  redao at a quarta-feira de cada semana.


1#6 BLOGOSFERA
EDITADO POR KTIA PERIN kperin@abril.com.br

RADAR
LAURO JARDIM 
DLAR
Apesar do dlar mais alto do que h um ano, Miami (com 11% do total) e Orlando (8,8%) desbancaram Buenos Aires como o destino internacional mais procurado pelos brasileiros para o rveillon.
www.veja.com/radar 

QUANTO DRAMA!
PATRCIA VILLALBA
NOVELA
Alguns atores sempre vivem os mesmos papis ou formam pares j vistos. Apenas cinco meses depois de Salve Jorge. Tnia Khalill est de novo com Domingos Montagner, em Jia Rara.
www.veja.com/quantodrama 

COLUNA
RODRIGO CONSTANTINO
ECONOMIA
Mantega declarou que as empresas brasileiras esto paradas por falta de segurana jurdica. Meu queixo caiu. Fui reler para ver se meus olhos me traam. Era isso mesmo. O prprio Mantega afirmando que a insegurana jurdica tem prejudicado investimentos. 
www.veja.com/rodrigoconstanimo 

VIVER BEM
ENEIDA RAMOS
NUTRIO
Os brotos de alfafa so alimentos naturais e saudveis, ricos em protenas e corrigem as carncias decorrentes da agitao da vida Moderna. 
www.veja.com/viverbem 

ESPELHO MEU
PROTEO SOLAR
Parece natural achar que, quanto mais alto o FPS (fator de proteo solar), maior a proteo solar oferecida pelo produto. No  bem assim. Corretamente aplicado, um protetor solar com FPS 30 bloqueia 97% dos raios ultravioleta B (UVB), responsveis pelas queimaduras. J um protetor com FPS 50 bloqueia 98% dos UVB, apenas 1% a mais. Acima do FPS 50, o aumento da proteo  irrisrio e nunca vai chegar a 100%. A radiao solar que nos atinge  composta dos raios UVA e UVB. Os raios UVB causam queimaduras solares, os raios UVA aceleram o envelhecimento da pele e ambos, UVA e UVB, podem causar cncer de pele. O creme deve agir tambm contra os raios UVA.  o chamado protetor de amplo espectro. E no vale economizar no uso: aplique generosamente.
www.veja.com/espelhomeu

NOVA TEMPORADA
THE FOLLOWING
Ainda sem data de estreia definida, a segunda temporada da srie The Following comea a ser exibida nos Estados Unidos em janeiro. Com o objetivo de mostrar ao pblico as diferenas entre o policial Ryan (Kevin Bacon) e o assassino em srie Joe (James Purefoy), a histria dar um salto de cerca de um ano. Novos personagens j esto anunciados. No Brasil. The Following est na grade de programao do canal Warner. www.veja.com/temporada

SOBRE IMAGENS
ANSEL ADAMS
O fotgrafo Ansel Adams (1902-1984) foi um gnio da fotografia de paisagens em preto e branco. Suas imagens de vrios parques nacionais imortalizaram a paisagem do Oeste americano. Adams sempre trabalhou com cmeras e filmes de grande formato e esteve ligado ao desenvolvimento de tcnicas que revolucionaram a fotografia, como a criao do filme instantneo Polaroid, em 1947. Escreveu dezenas de livros, dos quais trs, sobre tcnica fotogrfica, h dcadas se mantm fundamentais e adotados nas escolas de comunicao e fotografia mundo afora: O Negativo, A CmeratA Cpia (Editora Senac).
www.veja.com/sabreimagens

 Est pgina  editada a partir dos textos publicados por blogueiros e colunistas de VEJA.com


1#7 EINSTEIN SADE  LESO DO JOELHO DE ATLETA
Tratar a condio  essencial para evitar problemas futuros e garantir a retomada da atividade fsica.

     O p est fixo no solo e o corpo gira repentinamente. Com o movimento brusco, o joelho estala. A sensao, afirmam aqueles que j sofreram uma leso do ligamento cruzado anterior,  de que alguma coisa se rompeu depois de ser estirada at o limite. E  realmente isso que acontece com o ligamento localizado no joelho: quando submetido a um movimento de rotao, em geral associado a flexo, ele se rompe. 
     O ligamento cruzado anterior  uma estrutura que une o fmur e a tbia e  um dos principais responsveis pela estabilidade anterior do joelho. Popuiarmente conhecida como leso do joelho de atleta, a ruptura do ligamento cruzado anterior  mais comum entre os esportistas e os chamados atletas de fim de semana.  
     Os sintomas mais imediatos da condio so a dor e o inchao, que podem sumir depois de semanas. Em um segundo momento  possvel perceber certa instabilidade, como se o joelho falhasse durante a caminhada, principalmente ao girar o corpo ou ao caminhar em um terreno irregular. O diagnstico  clnico, mas pode ser realizada uma ressonncia magntica para confirm-lo. 
     A soluo mais eficaz  a cirurgia, que deve ser precedida e seguida de fisioterapia. O ligamento lesionado  retirado e substitudo, j que as pontas dessa estrutura, depois de rompidas, no podem ser  reconstitudas. Pode-se utilizar tendes retirados da parte posterior da coxa ou o tendo patelar do prprio paciente. H, ainda, a opo de buscar essa estrutura em um banco de tecidos. 
     Durante o procedimento cirrgico, realizado por meio de artroscopia, o mdico utiliza essas composies para fazer um novo ligamento. O joelho no  imobilizado, mas durante uma ou duas semanas  necessrio o uso de muletas at que seja possvel caminhar mantendo o equilbrio postural. O tratamento fisioterpico tem incio j no primeiro dia do ps-operatrio, ainda dentro do hospital. Ele ajuda a reduzir a dor, ganhar amplitude de movimento, manter a fora e a resistncia muscular e melhorar a percepo sobre o corpo. Em geral, a partir do sexto ms  tempo necessrio para que o ligamento se recupere biologicamente  as atividades esportivas podem ser retomadas. Se no tratada, a leso do ligamento pode comprometer os movimentos rotatrios (como se o joelho estivesse frouxo), levando a dificuldades para caminhar, levantar e sentar. Alm disso, pode causar artrose precoce, leses do menisco e problemas com a cartilagem do joelho. Por isso, se os sintomas da leso de ligamento cruzado anterior soarem familiares, no deixe de buscar aconselhamento mdico. 

Saiba mais sobre este e outros assuntos no site www.einstein.br
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Sua sade  o centro de tudo.
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Responsvel Tcnico:
Dr. Miguel Cendoroglo Neto - CRM: 48949
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2# PANORAMA 310.10.13

	2#1 IMAGEM DA SEMANA  RIR, CHORAR OU DESAMIAR?
	2#2 DATAS
	2#3 HOLOFOTE
	2#4 SOBEDESCE
	2#5 CONVERSA COM PIETRA PRNCIPE  ELA  A VINGANA DOS NERDS
	2#6 NMEROS
	2#7 RADAR
	2#8 VEJA ESSA

2#1 IMAGEM DA SEMANA  RIR, CHORAR OU DESMAIAR?
Novo sistema de sade americano tem tantos problemas que nem Obama segura.

A piada j estava prontinha, s esperando para ser contada. O humorista Jay Leno fez isso: " mais fcil entrar para a Al Qaeda pelo site deles do que inscrever-se no Obamacare". A quantidade de erros operacionais no novo sistema de sade que entrou em vigor nos Estados Unidos  to avassaladora que pe em risco a estabilidade nacional. Um resumo: quem tenta se inscrever no consegue acessar o site criado para isso, ao preo de 500 milhes de dlares; quem acessa no consegue completar a inscrio e quem completa descobre que vai pagar mais do que imaginava. O monumental fiasco afeta em especial as pessoas que tm plano individual, 14 milhes de americanos. Como o leque obrigatrio de coberturas aumentou, as seguradoras esto cancelando os planos desse tipo. Os afetados procuram ento as alternativas oferecidas pelo novo sistema. Que, obviamente, no funciona. "Ningum est mais aborrecido do que eu", disse o presidente Barack Obama, enquanto a maior realizao de seu governo e o mundo de forma geral desabavam  sua volta. Uma situao to ruim que a melhor coisa que aconteceu a ele foi ser rpido e galante ao amparar Karmel Allison, que passou mal durante o discurso. Grvida e diabtica, ela deveria exemplificar as benesses do novo sistema.  Os problemas imediatos decorrem de erros de programao e os de fundo, do estrago que causam na viso poltica corporificada por Obama, a de que o governo est aqui para ajudar. Em maro, o principal responsvel pela rea de tecnologia da informao do servio de sade j havia antecipado a encrenca: "Vamos fazer o possvel para que no seja uma experincia de Terceiro Mundo". Um aviso aos americanos ainda perdidos sobre o novo lugar em que se descobriram: no Terceiro Mundo, as piadas saem prontas. 
VILMA GRYZINSKI


2#2 DATAS
MORRERAM
o cantor e compositor carioca Paulinho Tapajs. Junte um grupo de jovens, uma fogueira, a noite estrelada e um violo.  altssima a probabilidade de que a primeira cano entoada seja Andana ("Vim, tanta areia, andei / Da lua cheia, eu sei / Uma saudade imensa..."). Pelo menos era assim nos anos 70, 80 e 90. Tapajs comps esse clssico incontornvel da MPB com Danilo Caymmi e Edmundo Souto. A msica foi lanada em 1968, no Festival Internacional da Cano, interpretada por Beth Carvalho e os Golden Boys. Ficou em terceiro lugar, atrs de Sabi, de Chico Buarque e Tom Jobim, e Pra No Dizer que No Falei das Flores, de Geraldo Vandr. Dia 25, aos 68 anos, de cncer, no Rio.

Jovanka Broz, a viva do ditador iugoslavo Josip Broz Tito. Terceira esposa de Tito, ela conheceu o ento lder da resistncia aos nazistas durante a II Guerra. Os dois se casaram em 1952, ela aos 28 anos, ele aos 60. Ao mesmo tempo em que mantinha com mo de ferro a Iugoslvia (Eslovnia, Crocia, Bsnia, Srvia, Montenegro e Macednia), Tito circulava pelo jet set europeu graas a Jovanka. Elegante e animada, ela convivia com artistas de cinema como Elizabeth Taylor. Dia 20, aos 88 anos, de parada cardaca, em Belgrado.

O economista italiano Augusto Odone, inventor do leo de Lorenzo, tratamento que salvou a vida de seu filho e de milhares de outras pessoas. Desafiando os mdicos que diziam no haver cura para Lorenzo, portador de uma doena que destri o sistema nervoso, Odone e sua mulher, Michaela, criaram uma mistura de leos alimentares naturais capaz de prolongar a vida do menino. A histria foi contada no filme O leo de Lorenzo (1992), com Nick Nolte e Susan Sarandon. Dia 25, aos 80 anos, de infeco pulmonar, na Itlia.

 TER|22|10|2013
DENUNCIADA
pelo Ministrio Pblico a nutricionista Gabriella Guerrero Pereira, pela morte do administrador de empresas Vitor Gurman, de 24 anos. Em julho de 2011, Gabriella voltava de uma festa, dirigindo um Jeep Land Rover em alta velocidade, quando subiu na calada e atropelou Gurman na Vila Madalena, bairro de classe mdia em So Paulo. Acusada de homicdio qualificado com dolo eventual (assumir o risco de matar), pode receber uma pena de oito a trinta anos de priso.

 QUA|23|10|2013
EXTRADITADO
o blgaro Galabin Boevski, campeo olmpico de levantamento de peso, que cumpria pena de nove anos no Brasil por trfico internacional de drogas. Ouro na Olimpada de Sydney (2000), foi preso com 9 quilos de cocana tentando entrar no Brasil, em 2011.

GANHOU
uma batalha de quarenta anos contra o Fisco italiano a atriz Sophia Loren, de 79 anos. O Estado ter de lhe devolver 276.000 euros, referentes a impostos cobrados em excesso em 1974. A atriz chegou a ser detida por dezessete dias.

 QUI|24|10|2013
ANUNCIADA
pelo Ministrio Pblico portugus a reabertura das investigaes do desaparecimento de Madeleine McCann, a menina inglesa que sumiu em um resort no Algarve em 2007. A reabertura do caso, arquivado em 2008, deve-se ao surgimento de novas evidncias no divulgadas. As autoridades portuguesas tero apoio de agentes da Scotland Yard. 


2#3 HOLOFOTE
OTVIO CABRAL

 ESTATIZAO DAS PATENTES
Jorge vila, presidente do Instituto Nacional da Propriedade Intelectual, perder o cargo nos prximos dias. Ser substitudo pelo diplomata Otvio Brandelli. A deciso foi tomada pelo ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, como parte de uma ampla mudana na concesso de patentes. O PT tambm patrocina no Congresso um projeto que introduz o "uso pblico no comercial" de patentes, com o objetivo de permitir que o governo, sob a justificativa de interesse nacional, possa utilizar uma inveno ou medicamento pagando quanto achar que vale ao pesquisador que os descobriu.

 INDSTRIA DA SECA
Uma disputa entre a governadora Rosalba Ciarlini (DEM) e o presidente da Cmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB), atrasa o incio de uma obra para aliviar os efeitos da maior seca do Rio Grande do Norte em trinta anos. Na tera passada, Rosalba foi ao Ministrio da Integrao Nacional pedir 3 milhes de reais para a construo pelo estado de uma adutora em Jucurutu. No dia seguinte, o mesmo rgo recebeu Alves, que afirmou que a obra deveria ser feita pelo governo federal, no pela governadora de oposio. Resultado: o dinheiro para a adutora ainda no saiu.

 PLANOS PARA O FUTURO
O governador do Rio de Janeiro, Srgio Cabral, reuniu-se h alguns dias com o ex-presidente Lula. Disse que vem sendo aconselhado a deixar o governo em janeiro para assumir uma vaga de conselheiro do Tribunal de Contas do Estado e passar o cargo para o vice, Luiz Fernando Pezo. Assim, manteria o foro privilegiado, um salrio prximo ao atual e comandaria a campanha de Pezo a governador. Lula no gostou. Prefere que Cabral fique no cargo at o fim do mandato e depois assuma um ministrio em um eventual segundo mandato de Dilma Rousseff.

 CONCENTRAO DE RENDA ESPANHOLA
Um estudo feito pelo Ita BBA com base nos balanos dos 24 maiores times do Brasil em 2012 mostra que houve um crescimento nominal de 32% nas receitas, que chegaram a quase 3 bilhes de reais. O principal motivo foi o novo contrato com a Globo para os direitos de transmisso dos mais importantes campeonatos, que deixou de ser em grupo e passou a ser negociado individualmente. Metade desse dinheiro vai para os cofres de apenas cinco times: Corinthians, Flamengo, So Paulo, Internacional e Santos. A tendncia  que, nos prximos anos, os dois times com maiores torcidas, o Corinthians e o Flamengo, tenham cada vez mais dinheiro, em um fenmeno semelhante ao que ocorre com Barcelona e Real Madrid na Espanha, um dos nicos grandes pases europeus em que a negociao tambm  feita com cada clube.

 A GUERRA DAS RUAS
Um dos maiores especialistas em segurana do mundo, o major-general Aharon Ze'evi-Farkash, das Foras de Defesa de Israel, vem a So Paulo nesta semana para uma srie de palestras sobre combate  violncia urbana e em grandes eventos. Farkash comandou a direo de inteligncia do Exrcito israelense entre 2001 e 2006 e o comit de segurana da Olimpada de Atenas, em 2004.

 PRMIO DE CONSOLAO
Fora de uma Copa do Mundo pela primeira vez desde 1994, o Paraguai pretende ser coadjuvante no torneio do Brasil. O presidente do pas, Horacio Cartes, convidou a Espanha, a atual campe do mundo, para fazer sua preparao em Assuno, no centro de treinamento do Libeitad, time presidido por ele desde 2001. Os espanhis esperam o sorteio da tabela da Copa, no incio de dezembro, para responder.

 AMIGOS POR TODO LADO
O cargo de especialista em marketing no Senado no  o primeiro emprego conseguido por Jos Dirceu para sua namorada, Simone Tristo Pereira. Antes de ser nomeada por Renan Calheiros, ela j havia trabalhado com o deputado Eduardo Gomes (ento no PSDB-TO) e na representao do governo do Tocantins em Braslia, nomeao feita pelo governador, o tucano Siqueira Campos. No  s entre petistas e aliados que Dirceu tem amigos dispostos a ajud-lo nos momentos mais difceis.


2#4 SOBEDESCE
SOBE
 Golf fora de campo  O incio do Campeonato Paulista ser adiado em uma semana, na primeira vitria do Bom Senso F.C., grupo de jogadores que busca mudanas no futebol.
 Nono dgito - A partir deste domingo, os celulares do Rio e do Esprito Santo tero um 9 na frente, como j ocorre em So Paulo. At o fim de 2016, deve ser assim em todo o pas.
 Espanha - A quarta economia da zona do euro saiu da recesso de dois anos e cresceu 0,1% no terceiro trimestre.

DESCE
 Gol dentro de campo - Com Portugal e Sucia na repescagem para a Copa, ou Cristiano Ronaldo ou Ibrahimovic, que disputam a artilharia europeia, ficar fora do Mundial no Brasil.
 Carecas - Cientistas anunciaram o desenvolvimento de cabelo humano em laboratrio, o que deve abrir caminho para o fim da calvcie.
 Mdia rabe - Uma TV do Catar ocultou imagens de atletas e da bandeira de Israel na transmisso da Copa do Mundo de Natao.


2#5 CONVERSA COM PIETRA PRNCIPE  ELA  A VINGANA DOS NERDS
A apresentadora Pieira Prncipe se tornou a musa dos rapazes loucos por computador. D conselhos, ensina a paquerar e faz tima propaganda deles.

Voc  boa de computador? 
Nada. Gosto s de videogame e redes sociais.

Seus fs mais fiis so nerds?
Eu sou muito acessvel, converso no Twitter e tenho amigos virtuais. Tem menina maluca que se acha estrela e os destrata.

Qual o obstculo que os atrapalha: timidez ou falta de experincia? 
Timidez. Quando me vem, ficam de boca aberta. Sempre falo para eles no terem uma vida s na internet e conhecerem gente na vida real. Pareo me dando conselhos. 

E o que diz para os que querem se sair bem com as garotas? 
Trat-las muito bem e tomar cuidado para no virar amigo.  preciso deixar claras as segundas intenes. E saber lidar com rejeio. Tomei muito "no" e estou viva.

Qual caracterstica deles pode se transformar em atrao? 
O jeito de observar muito. Quem  observador se d bem com as mulheres. E eles ainda podem virar milionrios, mas aconselho a fugir das interesseiras.

O que faria se fosse obrigada a se desconectar? 
Sexo.

Pode ver e-mail durante? 
S depois. Deixo, porque  um cigarro moderno.


2#6 NMEROS
 627.000 tablets foram vendidos no Brasil em agosto. Foi a primeira vez que a venda desses aparelhos ultrapassou a de laptops no pas.
 3 anos foi o tempo necessrio para que os tablets, lanados em 2010, superassem a participao de mercado dos computadores portteis no pas  menos da metade dos oito anos que os laptops levaram para tomar a liderana do mercado dos desktops, os computadores de mesa.
 381 dlares, ou 831 reais,  o preo mdio de um tablet no mundo, enquanto um computador custa, em mdia, quase o dobro, 635 dlares.
 2015 dever ser o ano em que a venda de tablets ser maior que a de laptops e desktops somados em todo o planeta, segundo consultorias internacionais.


2#7 RADAR
LAURO JARDIM ljardim@abril.com.br

 MENSALO
ENFIM, A PRISO
Ateno para o dia 6 de novembro. Ser a histrica data de expedio dos primeiros mandados de priso da leva inicial  talvez a nica  de mensaleiros.

 GOVERNO
MUITO CHUTE
Dilma no apenas no est discutindo reforma eleitoral com os aliados, como s tratar do assunto em dezembro. Antes disso, o que aparecer nas pginas de jornais  lobby e chute.

TOQUE DE DILMA
O discurso de Dilma Rousseff na TV sobre o leilo de Libra, na segunda-feira, foi escrito por Joo Santana, como sempre. Tambm como de hbito, Dilma mexeu muito no texto. A numeralha toda que apareceu no discurso, daquelas de que ningum se lembra um minuto depois, por exemplo,  obra de Dilma.

TOMOU DORIL
Constatao: Arno Augustin, o secretrio do Tesouro que se metia em toda a rea econmica e de infraestrutura e que assustava investidores mais do que vampiro, sumiu de circulao. Parou inclusive de participar de reunies com empresrios.

MURAL DE OURO
Uma concorrncia recm-concluda de 4,1 milhes de reais do Ministrio da Defesa  o exemplo clssico de como extrapolar nos gastos de comunicao. Um msero jornal mural no edifcio-sede em Braslia vai custar 155.400 reais durante um ano.

UM AVANO NO BC
Um projeto de Francisco Dornelles destinado a aumentar a credibilidade da poltica monetria vai andar agora  velocidade de um trem-bala  embora estivesse parado no Senado desde 2007. Renan Calheiros reunir na tera-feira os lderes dos partidos para votar at dezembro a fixao do mandato de toda a diretoria do Banco Central  incluindo o do presidente. Recentemente, a OCDE recomendou ao Brasil a adoo da medida, mas Guido Mantega disse que "em time que est ganhando no se mexe". De acordo com o texto de Dornelles, o mandato ser de seis anos, com direito a uma reconduo. Nos EUA, o mandato do presidente do Fed  de quatro anos, mas permite mais de uma reconduo.

 CMARA
NA MESMA TECLA
Marco Feliciano vai lanar dois livros antes de deixar a presidncia da Comisso de Direitos Humanos da Cmara, em 2014. Um deles, de autoajuda. O outro, sobre a militncia LGBT, promete esquentar a polmica  entre ele e os movimentos gays. Diz Feliciano: "Tenho algumas bombas. Falarei, por exemplo, sobre como alguns membros da militncia conseguiram enriquecer".

 ELEIES
PARA A FRENTE
Se na prtica vai ser assim, s o futuro dir, mas a marca da campanha de Acio Neves no ser o antipetismo. A avaliao  que o eleitor no aguenta mais o mote Lula versus FHC.

O QUE ELE QUER? 
Fernando Collor tem tido nos ltimos meses uma agenda pesada em Alagoas. Em princpio, pavimentando sua reeleio ao Senado. Mas h aliados desconfiando de que Collor pode querer disputar o governo.

 INTERNACIONAL
IMAGINE SEM VISTO 1
Tem gente grada do governo trabalhando contra a iseno de vistos americanos aos brasileiros. O gasto dos brasileiros nos EUA em 2012 alcanou 8 bilhes de dlares.

 ECONOMIA
IMAGINE SEM VISTO 2
Um empresrio do setor de shopping center foi aos EUA tentar convencer a Abercrombie & Fitch a abrir uma loja no Brasil. Ouviu que, por enquanto, no. E no  por descrena no pas. Ao contrrio, 70% das vendas da loja da grife no Aventura Mall, em Miami, so para brasileiros. D uns 70 milhes de dlares por ano.

PLANOS CONCRETOS
A Votorantim planeja erguer uma segunda fbrica de cimentos no Marrocos.

 SHOWBIZ
TOM E VINCIUS
A famlia de Vincius de Moraes vetou uma proposta de 1 milho de reais da Nvea para o patrocnio de shows pelo Brasil em homenagem ao poeta. A empresa ofereceu o mesmo projeto  famlia de Tom Jobim, que topou na hora.

EM TODAS
Neymar acaba de virar scio da banda S pra Contrariar, de Alexandre Pires. Passou a ser dono de 20% de tudo o que o conjunto faturar.


2#8 VEJA ESSA
Ns precisamos ter confiana entre aliados e parceiros, e essa confiana (entre EUA e Alemanha) precisa ser restaurada. - ANGELA MERKEL, chanceler alem, ao participar do encontro da cpula da Unio Europeia em Bruxelas. Antes, ela havia cobrado do presidente Barack Obama explicaes sobre indcios de que seu celular teria sido monitorado pelos americanos. O jornaL ingls The Guardian publicou reportagem dizendo que os Estados Unidos j fizeram isso com 35 lderes mundiais e o LE Monde denunciou espionagem a cidados franceses.

 preciso fazer um trabalho de presso contra o governo (dos EUA) em sua ofensiva de coleta de informaes e tentativa de criminalizar a atuao de reprteres que obtm informaes de pessoas com acesso a dados confidenciais. - ELIZABETH BALLANTINE, a nova presidente da Sociedade interamericana de Imprensa (SIP), em entrevista a O Estado de S. Paulo.

Era um partido pequeno, que depois passou a ser grande e, como tal, foram aparecendo defeitos. Gente que d muito valor ao Parlamento, outros aos cargos pblicos. (...) Aparece a corrupo. - LUIZ INCIO LULA DA SILVA, ex-presidente da Repblica, falando do PT ao jornal espanhol El Pas.

 uma experincia incrvel. Para quem passou a vida escrevendo fico,  maravilhoso poder viv-la. - MRIO VARGAS LLOSA, Nobel de Literatura (2010), ao comentar, em O Globo, sua disposio de trabalhar como ator na pea de teatro Contos da Peste, que escreve atualmente, baseada no Decameron, de Boccaccio.

Danar com (o prncipe) Charles, um velho amigo,  melhor do que sexo. - EMMA THOMPSON, atriz, na revista americana Time.

No comemorei por causa dessa palhaada a. - WALTER, artilheiro do Gois, de 92 quilos, que no festejou o seu belo gol na vitria de 3 a 0 sobre o Atltico Paranaense para demonstrar indignao com a briga, nas arquibancadas, entre os torcedores do seu time.

Eu fiquei em choque e pensei: 'Agora ele diz isso? Agora, depois de quarenta anos?' - YOKO ONO, viva de John Lennon, no ingls The Times, referindo-se  declarao de Paul McCartney de que ela no teria sido a responsvel pela separao dos Beatles, conforme se disse durante dcadas; Yoko afirmou estar agradecida a Paul pelo depoimento.

Infelizmente, no sou homossexual. Tecnicamente falando, eu sou um humanossexual. - MORRISSEY, ex-vocalista dos Smiths, no site True To You; na autobiografia recm-lanada, ele fala sobre o envolvimento que teve com um homem.

O Supremo j disse que ela (a Lei da Anistia)  constitucional. Agora, o Supremo de ontem era um, o de hoje  outro. - MARCO AURLIO MELLO, ministro do STF, aps participar, na capital paulista, de um evento sobre a reforma do Cdigo Penal.

Como  que um empresrio que est dependendo de crdito de um banco estatal vai poder aparecer publicamente criticando o governo? Ele fica tolhido. A elite empresarial est no bolso do governo.  EDUARDO GIANNETTI, economista, em entrevista  Folha de S.Paulo.
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3# BRASIL 30.10.13

	3#1 DOCUMENTOS, CONVERSAS E PLANILHAS
	3#2 O COMPANHEIRO DE HAVANA
	3#3 O HOMEM DAS 700 MULHERES
	3#4 UM NEGCIO DE RISCO

3#1 DOCUMENTOS, CONVERSAS E PLANILHAS
Documentos em poder da Polcia Federal revelam que esquema de corrupo da multinacional Alstom tambm atingiu as estatais Eletronorte e Itaipu.
HUGO MARQUES

     No vocabulrio dos diretores da Alstom, a multinacional francesa investigada por corrupo em vrios pases, a palavra acerto pode ter significados bem diferentes. Para Jos Luiz Alqures, ex-presidente da empresa, ela nada tem a ver com suborno ou pagamento de comisses, prticas que, segundo ele, sempre foram proibidas. Em 2006, o engenheiro Osvaldo Panzarini, um graduado funcionrio da Alstom, foi flagrado em conversas telefnicas tratando de "acertos" que visavam a resolver litgios financeiros da companhia: "O pessoal 't' recebendo uma srie de regras aqui, de acertos. E os caras 'to' fixando em 3%, chegando no limite dos 5, mas esse 5 j  com... se tiver que pagar impostos". E completa: "O percentual a ser pago  sempre sobre o valor lquido e no sobre o valor contratual, entendeu?". A Alstom cobrava uma dvida milionria da Eletronorte. A estatal, porm, no reconhecia a dvida com a empresa. Nos dilogos interceptados, Panzarini explica a interlocutores que resolveu o impasse com a Eletronorte contratando um grupo de lobistas com bom trnsito em rgos federais e acesso privilegiado a graduados funcionrios pblicos. 
     VEJA teve acesso a um depoimento prestado  polcia pelo ex-diretor da Alstom no qual ele detalha o acordo  e deixa claro que a regra de no pagar a propina estabelecida pela multinacional, se  que existiu de fato, pode no ter sido respeitada. Panzarini contou que, no fim de 2005, logo depois de chegar a um acordo com a estatal sobre o pagamento da dvida, foi procurado por um grupo de lobistas que lhe pediu uma comisso de 10%, "a ttulo de auxlio para recebimento de valores" da Eletronorte. A comisso, segundo ele, tinha por objetivo remunerar a "influncia" junto a "funcionrios pblicos" para a liberao do dinheiro. Diante da recusa da Alstom, por considerar o percentual muito elevado, o grupo reduziu a comisso para 5%. A empresa ainda julgou a taxa muito alta. "A negociao final ficou em torno de 3%", contou o ex-diretor. Acordo fechado, mas no sem antes consultar o alto-comando da multinacional, que, conforme seu ex-presidente, proibia a prtica de corrupo. Ao que parece, abriu-se uma exceo. O depoimento, por si s, j seria suficiente para causar um estrago. Afinal, no  todo dia que se v um executivo de uma grande empresa admitir que negociou pagamento para obter vantagens no servio pblico. Os indcios de que funcionava um esquema de corrupo envolvendo empresas estatais de energia ganhariam provas ainda mais robustas. 
     Na poca, Osvaldo Panzarini chegou a ser preso. A Polcia Federal, que j investigava o grupo de lobistas, realizou uma busca no escritrio de um dos envolvidos e apreendeu documentos que reforavam as suspeitas. Em 2008, o jornal Folha de S.Paulo informou que o material recolhido inclua uma planilha com o nome de servidores pblicos  entre eles, o diretor de engenharia da Eletronorte Adhemar Palocci e o senador Valdir Raupp (PMDB-RO), presidente do partido  ao lado de valores em dinheiro e porcentuais. As anotaes encontradas pela polcia se encaixam com perfeio no depoimento prestado por Panzarini. No manuscrito, h algumas simulaes sobre pagamentos e recebimentos. Numa delas, traou-se um cenrio de "5%", em que dez pessoas aparecem como destinatrias do que seria a partilha de 5,2 milhes de reais. Numa segunda anotao, fazem-se as contas considerando o cenrio de "3%", porcentual que, segundo Panzarini, corresponde ao que foi acertado com os lobistas. As mesmas dez pessoas aparecem como destinatrias de 3,1 milhes (exatamente 3% sobre o que a Alstom cobrava da Eletronorte): Walter, Benoni, Belm e Carlos  40.000 cada um  e Nasc, Hercio, Ademar, Winter, Raupp e Beto  498.300 cada um. As planilhas foram apreendidas no escritrio de Jos Roberto Parquier, conhecido como Beto, ento assessor do senador Valdir Raupp. Beto aparece em vrias conversas interceptadas. Beto aparece nas planilhas. E quem eram os demais? 
     Para a Polcia Federal no havia dvidas. Diante dos depoimentos, das planilhas e das conversas interceptadas do grupo, existia sim um esquema de corrupo pesado nas estatais de energia eltrica. "Os indcios de consumao dos crimes de corrupo ativa so claros", anotou um policial no inqurito, "bem como o oferecimento de 'propina'." H vrias coincidncias entre as anotaes apreendidas e os nomes de diretores da estatal na poca. No depoimento, Panzarini confirma que se reuniu com os lobistas e diretores da estatal para tratar do assunto Eletronorte no gabinete do senador Valdir Raupp, no Congresso Nacional, em Braslia. Nada menos apropriado. Procurado por VEJA, o parlamentar disse que teve seu nome usado por estelionatrios. "O nome da gente  usado, ainda usam at hoje", ponderou. De fato, ningum est livre disso, principalmente no mundo poltico. O senador, alis, tinha diretor indicado por ele na cpula da Eletronorte. Quando surgiu a notcia de que seu assessor direto estava entre os presos, o senador no hesitou em demiti-lo sumariamente. Mas sem ressentimentos familiares: o filho do ex-funcionrio foi admitido no lugar do pai "por questes humanitrias". Adhemar Palocci, irmo do ex-ministro Antonio Palocci, no respondeu s perguntas de VEJA. No momento em que o envolvimento de altos funcionrios da empresa francesa em casos de corrupo  investigado em vrias frentes no Brasil (veja o quadro na pg. 66), os documentos apreendidos pela PF podem ajudar a revelar o que parece um mtodo. A Alstom, ao que tudo indica, usava uma empresa no Uruguai para fazer os tais "acertos". O mesmo grupo de lobistas que atuou na Eletronorte, segundo a Polcia Federal, tambm teria intermediado interesses da multinacional na Petrobras, em 2004, e em Itaipu Binacional, em 2006, segundo documentos apreendidos. 
     Apesar das provas colhidas, no houve nenhuma punio aos envolvidos. Mesmo com todos os indcios de crimes que envolvem estatais federais, na Justia o caso se limitou a um processo por estelionato que depois acabou arquivado no Paran, onde a investigao foi realizada. O responsvel pelo inqurito na poca foi o delegado Fernando Francischini, hoje lder do partido Solidariedade na Cmara. A VEJA, o parlamentar disse que enviou cpia do inqurito  Procuradoria da Repblica, em Curitiba, para que os documentos, de l, fossem enviados  Procuradoria-Geral da Repblica, em Braslia, o rgo que tem competncia para apurar crimes que envolvem parlamentares. A Procuradoria-Geral, porm, informou que nunca foi acionada. "Se o caso foi arquivado, vou solicitar, como deputado, a imediata reabertura, porque existem provas que agora so muito importantes para mostrar a dimenso do esquema de corrupo que envolveu governos e empresas estatais." A assessoria de Itaipu Binacional confirma que fez alguns pagamentos  Alstom no perodo em que transcorreram as investigaes, mas garante que tudo esteve dentro da legalidade, balizado pelo que estabeleciam os contratos assinados entre as duas empresas. A Eletronorte no respondeu. 

1 BILHO
Uma conta bancria descrita pela Polcia Federal como "lavanderia de dinheiro" para empresrios e polticos foi utilizada pela Alstom para pagamento de propina a integrantes do governo do PSDB em So Paulo, indicam as investigaes. Segundo documentos a que VEJA teve acesso, a Kiesser Investments, no MTB Bank, de Nova York, era uma das cinco contas utilizadas para fazer uma triangulao que despistava a origem do dinheiro. Entre 1997 e 2001, a conta Kiesser movimentou 1 bilho de dlares. Os papis mostram, por exemplo, duas transferncias que saram de uma conta em Luxemburgo, nos valores de 245.000 e 255.000 dlares, passaram pela offshore MCA Uruguay Ltd., do lobista Romeu Pinto Jnior, e terminaram na Kiesser. Ele j admitiu em depoimento que recebia dinheiro da Alstom e o repassava a pessoas no Brasil  mas diz no se lembrar a quem. A conta Kiesser j apareceu h mais tempo em outras investigaes e os policiais conhecem melhor os pormenores de sua movimentao. Tramita na Justia do Rio de Janeiro um processo contra os doleiros donos da conta. Espera-se para breve a sentena. A estrutura financeira utilizada para fazer rodar o esquema j est clara, e agora tambm comea a ficar mais ntida a rede de ligaes polticas que azeitavam essas engrenagens. E-mails de executivos da Alstom revelados na semana passada mostram que os lobistas eram fundamentais para conseguir contratos no governo tucano. Nas mensagens, os executivos definem esses gastos como "parte do investimento", que foi "lucrativo" para a matriz. 


3#2 O COMPANHEIRO DE HAVANA
O embaixador Carlos Zamora Rodrguez deixa o posto sob aplausos oficiais aps articular com o governo brasileiro a vinda dos mdicos cubanos e as agresses  blogueira Yoani Snchez.
ROBSON BONIN

     O embaixador de Cuba, Carlos Rafael Zamora Rodrguez, est se despedindo nesta semana, depois de quatro anos servindo aos irmos Fidel e Raul Castro em solo brasileiro. Ele recebeu uma srie de homenagens nos ltimos dias. Na quarta-feira 16, por exemplo, senadores e deputados simpatizantes do regime cubano interromperam sua agenda de trabalho no Congresso para conceder ao embaixador um pomposo caf da manh no gabinete da liderana do PT na Cmara. Na noite anterior, Zamora j havia recebido afagos ainda mais efusivos de militantes de esquerda em um bar de Braslia. Regada a rum cubano e cerveja, a despedida teve msica, pratos tpicos da ilha e, claro, muitos discursos. Tratado como uma celebridade de esquerda, ele distribuiu abraos, tirou fotos e se emocionou com os elogios dos "companheiros" brasileiros. Tanta admirao no surgiu sem motivo. 
     No perodo em que permaneceu em Braslia, o embaixador cubano foi muito mais que um diplomata a servio de um regime estrangeiro. Zamora foi um verdadeiro militante das causas petistas. Com trnsito livre no Palcio do Planalto desde os idos do governo Lula, o embaixador teve, recentemente, papel crucial na operao montada para manter em sigilo as intenes do governo de importar mdicos do regime cubano. A ideia vazou em maio, por descuido do ento chanceler Antonio Patriota. Diante da repercusso negativa, a proposta chegou a ser falsamente abandonada pelo Palcio do Planalto, mas passou a ser gestada nas salas silenciosas da embaixada de Zamora. Quando o governo finalmente admitiu o acordo milionrio com os irmos Castro, trs meses depois da fala de Patriota, o primeiro avio carregado de cubanos j estava pronto para decolar de Havana. "Entregamos ao Brasil o melhor do nosso trabalho, feito com todo o nosso corao nesta relao que consideramos estratgica e essencial para o povo cubano", discursou Zamora na sua festa de despedida. O Mais Mdicos  a principal aposta eleitoral de Dilma Rousseff para tentar a reeleio no ano que vem. Tanto que o governo armou na semana passada um verdadeiro palanque no Palcio do Planalto para comemorar a formalizao do programa. Em seu discurso, a presidente pediu desculpas "em nome do povo brasileiro" ao cubano Juan Delgado, de 49 anos, hostilizado por brasileiros na chegada ao pas. 
     Por sua fidelidade aos principais integrantes do governo petista  o assessor de assuntos internacionais da Presidncia Marco Aurlio Garcia  um dos seus melhores amigos , Zamora sempre transitou com desenvoltura e prestgio pelas principais bancadas do Congresso, sendo rotineiramente recebido pelos mais importantes ministros da  Esplanada. Pela proximidade com o poder, parecia viver no Brasil como se estivesse sob a proteo do manto ideolgico da ilha. Em fevereiro deste ano, por exemplo, Zamora liderou um movimento que em qualquer lugar do mundo seria o estopim de um grave incidente diplomtico. O embaixador articulou uma conspirao para perseguir e difamar a blogueira cubana Yoani Snchez durante sua visita ao Brasil. Yoani, uma jornalista de 38 anos, estava no pas para divulgar o livro De Cuba, com Carinho, uma coletnea de seus textos sobre o triste cotidiano do povo cubano sob a ditadura dos irmos Castro. Ela foi sequestrada, torturada e, durante anos, impedida de deixar o pas simplesmente por defender a liberdade de expresso  uma atitude impensvel na ilha dos sonhos de muitos petistas. Graas ao plano maquiavlico do embaixador Zamora, mesmo estando no Brasil, uma democracia, a blogueira teria seus passos seguidos por agentes do G2, o servio secreto cubano. Arquitetada em uma reunio sigilosa na Embaixada de Cuba em Braslia, a ao foi revelada em detalhes por VEJA. 
     Uma conspirao oficial em territrio estrangeiro contra quem quer que seja j seria uma monumental afronta  soberania de qualquer nao. A ao de Zamora, no entanto, foi fruto de uma parceria. O plano para espionar e constranger Yoani foi executado com o conhecimento e o apoio do PT, do PCdoB e at de um graduado funcionrio da Presidncia da Repblica. Tratava-se de Ricardo Poppi Martins, assessor do ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidncia, Gilberto Carvalho. Poppi participou da reunio na embaixada em que tudo foi planejado e recebeu das mos de Zamora um dossi contendo informaes falsas para denegrir a imagem de Yoani com a orientao expressa de espalhar o contedo pela internet. To grave quanto a ao do embaixador, a participao do assessor de Gilberto Carvalho na trama mereceria a adoo de contundentes medidas pelo governo. Naquela ocasio, porm, o Itamaraty se limitou a dizer que no havia tomado conhecimento da conspirao. Nesse caso, nem sequer houve pedido de desculpas  blogueira. Pior: numa demonstrao de apoio, na mesma semana em que Yoani era agredida por manifestantes, Zamora foi recebido no Palcio do Planalto pelo amigo Marco Aurlio Garcia. Treinado em tcnicas de "ciberguerra" e "novas formas de comunicao de rede e batalhas polticas"' pelo regime cubano, o assessor de Gilberto Carvalho admitiu ter participado da reunio na embaixada e recebido o dossi  e ainda assim continua at hoje no cargo, pelo qual recebe 7.300 reais por ms. A indiferena do governo no episdio explica-se diante das homenagens rendidas ao embaixador agora. 


3#3 O HOMEM DAS 700 MULHERES
O esquema de trfico internacional desmantelado pela Polcia Federal levava subcelebridades para a frica com a oferta de 10.000 dlares por uma semana de sexo.
ALANA RIZZO E DANIELA LIMA

     Dez mil dlares por uma semana de sexo. Foi essa a oferta que levou ex-misses, mulheres-fruta, funkeiras e capas de revistas masculinas a entrar em um esquema internacional de explorao sexual que movimentou 45 milhes de dlares nos ltimos seis anos. Atradas pela promessa tentadora, em torno de 700 mulheres embarcaram rumo  frica, principalmente Angola, e  Europa. Uma vez l, o contrato era honrado na maioria das vezes  mas, como sempre, o diabo est nos detalhes. Algumas das jovens eram mantidas em crcere privado e obrigadas a fazer sexo sem preservativo, isso em pases africanos onde a taxa de contaminao por aids chega a 2,4% da populao adulta, o qudruplo do registrado no Brasil. Mesmo assim, algumas voltaram vrias vezes. O chefe da quadrilha no Brasil era o msico Wellington Edward, de nome artstico Latyno (nada a ver com o seu xar mais famoso), do desconhecido grupo de pagode Desejos. Ele foi preso pela Polcia Federal na semana passada, em So Paulo. Com Latyno, foram apreendidos mais de vinte passaportes de mulheres. 
     VEJA entrou em contato com algumas das moas que aparecem no inqurito da PF. Uma ex-miss, hoje com 21 anos, disse que foi abordada por Latyno em uma boate em So Paulo. Ela no negou nenhuma das informaes da polcia, mas no quis dar detalhes sobre o caso. " uma fase muito nebulosa da minha vida e mexe muito com o meu psicolgico falar disso", afirmou. "Tem tantas meninas famosas que participavam disso, eu sou s uma ex-miss", disse. Procuradas, as "meninas famosas" admitem que conheciam Latyno, mas afirmam que ele apenas organizava turns de shows delas em Angola. Elas negam que se prostitussem. 
     Os registros da imigrao mostram que, nos ltimos seis anos, Latyno embarcava para o exterior ao menos duas vezes por ms. O principal destino era Angola, onde esteve mais de quarenta vezes. L estava o outro lder da quadrilha, o general angolano Bento dos Santos Kangamba. Casado com uma sobrinha do presidente de Angola, Jos Eduardo dos Santos (no poder desde 1979), Kangamba  dirigente do Movimento Popular de Libertao de Angola (MPLA), partido que governa o pas desde a independncia, em 1975, e presidente de um conglomerado que patrocina times de futebol na frica e em Portugal. 
     Latyno levava a ele de cinco a seis mulheres para passar uma semana com os clientes selecionados pelo grupo. Na maioria das vezes, elas eram recebidas na fazenda do militar. Em outros casos, eram levadas para hotis de luxo. Antes de oferecer as meninas aos empresrios e polticos, o general selecionava para si prprio a que mais lhe agradasse. Para a escolhida, o negcio era estratosfrico: 100.000 dlares pelo programa. Escutas obtidas pela PF com autorizao judicial revelam que sua maior preocupao era com doenas. Ele chegou a "devolver" uma garota porque ela tossia muito. 
     A quadrilha impedia as moas de deixar o local e confiscava o passaporte delas. Em muitos casos, eram foradas a fazer sexo sem preservativo. Em uma espcie de civilidade em meio  barbrie, ofereciam um coquetel antiaids depois do trabalho. Mas a polcia diz que o medicamento era falso. O militar pagava diretamente a Latyno, que cobrava de 10% a 20% do cach das moas. Ao menos uma delas, famosa por aparecer nua em revistas, reclama de calote e diz nunca ter recebido o combinado. Para trazer o dinheiro, Latyno muitas vezes voltava ao Brasil com milhares de dlares presos ao corpo. Comprava apartamentos e carros caros, como um Land Rover e um Chrysler 3000. 
     Kangamba e seu brao-direito, o produtor artstico angolano Nino Republicano, esto com ordens de priso expedidas e tiveram o nome includo na lista de procurados pela Interpol. No Brasil, alm de Latyno, participavam do esquema as aliciadoras Rose Merlin e Luciana Mello, que circulavam pela noite de So Paulo em busca das vtimas, e Jackson dos Santos e Eron Viana, os "despachantes" da quadrilha, responsveis pelos documentos. Esto todos presos. "O crime de trfico de seres humanos, notadamente de mulheres,  a terceira fonte de renda de criminalidade do mundo, atrs apenas do trfico de drogas e de armas", afirmou o delegado da PF Luiz Tempestini. 
     A promessa de dinheiro "fcil" continua a atrair milhares de jovens, em sua maioria mulheres, todos os anos. A histria de Latyno, Kangamba e suas mulheres-fruta revela a armadilha por trs dessa iluso. 

BELEZA EXPLORADA
Como funcionava o esquema que enviava garotas de programa de luxo brasileiras ao exterior, onde eram submetidas a maus-tratos

1- A ABORDAGEM
Integrantes da quadrilha aliciavam as jovens, entre elas modelos e danarinas, com promessas de at 10.000 dlares por uma semana de sexo no exterior. Os clientes eram empresrios e polticos. Um deles teria pago em torno de 100.000 dlares por uma nica noite de programa

2- A ORGANIZAO
Em mdia, dez mulheres eram enviadas ao exterior por ms, em um esquema que funcionava desde 2007. Entre os destinos esto Angola, frica do Sul, Portugal e ustria. A quadrilha movimentou 45 milhes de dlares, segundo a PF

3- OS MAUS-TRATOS
Uma vez l, as mulheres eram mantidas em crcere privado, ao menos em alguns casos, e tambm eram obrigadas a fazer sexo sem preservativo. Na volta ao Brasil, ganhavam um coquetel antiaids  que era falso

4- OPERAO DA POLICIA FEDERAL
No Brasil, cinco pessoas foram presas, entre elas o cantor Latyno, da banda Desejos, apontado como o lder da quadrilha. Na casa dele, foram apreendidos em torno de vinte passaportes. Dois angolanos tambm tiveram a priso pedida e esto na lista de procurados da Interpol. 
Os investigados respondero pelos crimes de trfico internacional de pessoas, favorecimento  prostituio, rufianismo, estelionato, crcere privado, perigo para a vida ou a sade e participao em organizao criminosa. As penas somadas chegam a 31 anos de priso.


3#4 UM NEGCIO DE RISCO
Por no incluir um pacote de manuteno eficiente, a compra ou o aluguel de caas russos seria um pesadelo.

     A compra de 36 caas para a Fora Area Brasileira (FAB), um negcio de 10 bilhes de reais, se arrasta desde 1998. J estiveram na disputa o Gripen sueco, o Rafale francs, o F-18 americano e o Sukhoi russo. Esse ltimo foi desclassificado da concorrncia ainda em 2003, por questes tcnicas. Atualmente, a escolha do F-18, fabricado pela Boeing,  dada como certa pelos oficiais da Aeronutica. O anncio da compra, porm, foi adiado no ms passado em resposta  revelao de que os servios de inteligncia americanos andaram espionando as comunicaes da presidente Dilma Rousseff. Nada de especial contra ela  na semana passada, descobriu-se que a primeira-ministra alem Angela Merkel e outros 34 lderes mundiais foram grampeados , mas o ministro da Defesa, Celso Amorim, parece achar que atrasar um negcio que tambm interessa ao Brasil no  o suficiente para espezinhar os americanos. H duas semanas, durante a assinatura de acordos de 2 bilhes de reais para a importao de baterias antiareas, Amorim deu corda a uma proposta de Sergei Shoigu, ministro da Defesa da Rssia, para reabilitar o Sukhoi na concorrncia dos cacas. Shoigu sugeriu que o Brasil faa um leasing de unidades do Sukhoi-35 a partir de janeiro de 2014, quando os doze Mirage da FAB em operao j tero sido enviados ao ferro-velho. Na Aeronutica, reina um misto de descrena e pnico.  
     A preocupao dos brigadeiros tem como lastro a experincia da Venezuela, que comprou 24 avies de combate Sukhoi e trinta helicpteros russos. O que deveria ter transformado o regime chavista em uma potncia militar revelou-se um mico. A pssima ou inexistente rede logstica de ps-venda russa condena a flotilha venezuelana ao sucateamento. Apenas seis caas esto em condies de voo. Os demais no saem do cho por falta de peas, que levam at dois anos para ser entregues. Quanto aos helicpteros, seis de trinta j caram por falta de manuteno, matando 31 militares venezuelanos. O mais recente acidente aconteceu em maio do ano passado, com quatro mortes. Metade dos helicpteros restantes est impedida de voar por problemas tcnicos. 
     Os militares brasileiros tambm esto tendo problemas com os helicpteros russos MI-35 comprados em 2008. Foram encomendadas doze unidades para ser entregues em 2011, mas at agora s nove pousaram em solo nacional. Um major-brigadeiro da FAB disse a VEJA que a falta de peas j compromete a segurana de alguns equipamentos. Os russos tentaram convencer a Embraer a fazer a manuteno por eles, mas a empresa aeronutica brasileira recusou, com medo de ver a sua reputao manchada por algum acidente. "O Brasil vai repetir o erro do meu pas e pr a vida dos seus militares em risco se insistir em comprar avies com base em critrios polticos e no tcnicos", diz Mrio Ivan Carrat Molina, ex-diretor do Instituto de Altos Estudos da Defesa Nacional da Venezuela. 
LEONARDO COUTINHO
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4# ECONOMIA 30.10.13

	4#1 AGORA  QUE SO ELAS
	4#2 O OLHAR EXTERNO

4#1 AGORA  QUE SO ELAS
A entrada de duas petroleiras privadas no consrcio que vai explorar o campo de Libra foi um alvio para o governo. Mas, at o leo vir  tona, ser preciso desativar vrias armadilhas.
MALU GASPAR

     As horas que antecederam o leilo de Libra, o maior campo do pr-sal brasileiro, foram uma prova de fogo para os nervos da presidente Dilma Rousseff e de seus cardeais. Nada estava definido. O governo havia propalado uma verso otimista, segundo a qual at quatro consrcios disputariam as reservas fincadas nas profundezas da Bacia de Santos, mas nos bastidores sempre se soube que no haveria concorrncia. O que assombrava o Planalto era a possibilidade de a Petrobras ter de encarar um consrcio fraco, ladeada por estatais chinesas sem experincia na explorao de uma fronteira to complexa. O governo avaliava que isso soaria como um retumbante fracasso do novo modelo de explorao petrolfera alardeado com ufanismo ainda na era Lula. Foi s na manh da prpria segunda-feira do leilo, no ltimo dia 21, que as costuras para atrair a anglo-holandesa Shell e a francesa Total prosperaram. Ainda que o nico envelope finalmente depositado na urna cravasse o lance mnimo, a presidente tomou-se de alvio. O futuro, porm,  cheio de interrogaes. Os observadores tm dvidas sobre at que ponto as multinacionais sero tolerantes  mo forte do Estado brasileiro na explorao do campo. Tambm a sade financeira da Petrobras preocupa. Atolada em dvidas, a estatal ter de arcar com 40% dos altos custos envolvidos na operao de Libra. 
     O contrato ser selado at o fim de novembro, em evento que promete grande fanfarra poltica em Braslia. Nada indica que, at l, o arranjo feito no leilo v mudar de figura, mas entre as partes envolvidas paira certo temor sobre como a estatal criada para gerir a nova fronteira, a Pr-Sal Petrleo SA (PPSA), vai atuar. Segundo as regras em visor, todas as decises sero tomadas por um comit em que a PPSA tem 50% dos votos e poder de veto. Nesse sistema, sempre h o risco de ela preferir privilegiar interesses do governo ou da Petrobras em detrimento dos das demais companhias, refreando, por exemplo, o desenvolvimento de Libra em favor de outros campos que lhe paream mais lucrativos. A francesa Total s decidiu entrar no jogo depois de conhecer os nomes indicados para compor a PPSA, todos executivos aposentados da Petrobras que estavam no setor privado. "Acho que so tcnicos experientes e competentes", diz o presidente da Total no Brasil, Denis Palluat de Besset. Mas  preciso ainda esperar para ver como a nova parceria vai se acomodar no duro dia a dia do pr-sal. Uma regra, em especial, manter os executivos do consrcio em permanente estado de alerta. Segundo o contrato, na hora de vender o petrleo, as empresas no podero incluir a inflao no clculo dos custos de explorao.  exatamente com base nos custos, monitorados ao longo dos anos pela PPSA, que o lucro ser aferido. Ou seja, se a inflao disparar, os ganhos encolhero. 
     Os prximos tempos tambm sero tensos para a Petrobras. Abalada pelo prejuzo acumulado com a defasagem no preo dos combustveis (importados a um valor maior do que o praticado no mercado brasileiro) e com endividamento recorde, de 240 bilhes de reais, a empresa est enredada em uma equao financeira que precisa ser solucionada para que no se comprometa a explorao dos futuros campos do pr-sal. A estatal opera atualmente outras cinco jazidas na nova fronteira petrolfera. S Libra exigir investimento de 200 bilhes de dlares nos prximos 35 anos. Quando a produo comear, por volta de 2020, 41% de tudo o que sobrar depois de subtrados impostos e custos ir para a Unio. Bem antes disso, j no dia da assinatura do contrato de Libra, a Petrobras entregar o primeiro cheque, este apenas pelo direito de explorar a rea. Dos 15 bilhes de reais a ser pagos, 6 bilhes sairo do caixa da estatal. A presidente, Graa Foster, diz que dinheiro no falta. Mas, dentro do prprio governo, ganha fora a defesa de um novo reajuste dos combustveis at o fim do ano, exatamente para ajudar a sanar a companhia e no desacelerar o passo do pr-sal. 
     Restar ainda uma questo fundamental: pelo atual sistema de partilha, toda e qualquer reserva da nova riqueza deve ser operada exclusivamente pela Petrobras. A empresa ter pelo menos 30% de cada campo, queira ela ou no, e desembolsar sempre a quantia definida pela proposta vencedora. Pode soar como boa notcia para os nacionalistas de planto  muitos dos quais lanaram bombas e provocaram quebra-quebra do lado de fora do hotel onde foi realizado o leilo, no Rio de Janeiro , mas no fundo  um imenso fardo. De todas as regras para a explorao do pr-sal, essa  a que sofre mais resistncia dentro do prprio governo, desagradando inclusive a uma ala de executivos da Petrobras. A outra norma que suscita discordncias internas  a do contedo nacional; segundo a lei, cerca de 60% dos equipamentos para a extrao do pr-sal devem ser fabricados no Brasil. "Est claro que essas regras tero de ser flexibilizadas, pois nem a Petrobras d conta de se envolver em tantos projetos ao mesmo tempo, nem a indstria nacional tem condies de produzir nessa escala", avalia Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura. 
     O gargalo, financeiro e de maquinrio, foi uma das variveis que espantaram candidatos estrangeiros  explorao do campo de Libra. Tambm entrou na conta dos que decidiram ficar no preo; em razo dos riscos, eles puxaram o lance para o menor patamar possvel. As mesmas restries ajudam a explicar por que a ANP s prev outro leilo a partir de 2015. Para o pas, o melhor seria propiciar um ambiente de mais concorrncia daqui para a frente. At as eleies do ano que vem, porm, que ningum espere grandes mudanas. Afinal, como disse a presidente Dilma Rousseff em cadeia nacional de TV, o pr-sal  um sucesso. E ponto final. 

UM GIGANTE DESAFIO
O consrcio que vai explorar Libra, a maior reserva descoberta at agora no pr-sal, ter de investir alto para pr de p uma logstica cuja complexidade supera a de qualquer outro campo no Brasil.

PETROBRAS 40%
SHELL (anglo-holandesa) 20%
TOTAL (francesa) 20%
CNOOC (chinesa) 10%
CNPC (chinesa) 10%

INVESTIMENTOS: 200 bilhes de dlares
RESERVAS: 8 a 12 bilhes de barris
PRODUO: 1,4 milho de barris por dia
POOS A SER PERFURADOS: 200
PLATAFORMAS: de 12 a 18
BARCOS DE APOIO: de 60 a 90

FONTES: Agncia Nacional do Petrleo (ANP) e empresas


4#2 O OLHAR EXTERNO
O FMI e a OCDE apontam as chagas da economia brasileira.

     Dois relatrios internacionais, um produzido pelo Fundo Monetrio Internacional (FMI) e o outro pela Organizao para a Cooperao e Desenvolvimento Econmico (OCDE), expuseram de maneira clara as deficincias da economia brasileira. De modo geral, os documentos, divulgados coincidentemente na semana passada, expem os fatores responsveis pelo baixo potencial de crescimento. Segundo um estudo produzido por tcnicos do FMI, o ritmo mximo de avano sustentvel do PIB diminuiu, nos ltimos anos, de 4,25% para 3,5% ao ano. O potencial poder cair para 3% ao ano, alerta o FMI, caso no sejam feitas reformas na economia e o nvel de investimentos no setor produtivo, principalmente na infraestrutura, no aumente. 
     J o relatrio anual da OCDE sobre o Brasil pe em evidncia chagas como a baixa produtividade, em decorrncia da falta de preparo da mo de obra, do protecionismo e da burocracia, entre outros fatores. A OCDE destaca a baixa integrao brasileira s cadeias de produo global, bastante inferior ao que era de esperar pelo tamanho da economia. Na educao, preocupa a evaso elevada no ensino mdio. A fragilidade fica evidente na formao de trabalhadores mais qualificados. Apenas 13% dos brasileiros entre 25 e 34 anos possui diploma universitrio, contra 64% dos sul-coreanos (veja o quadro abaixo). 
     A poltica fiscal mereceu ateno especial do FMI e da OCDE. Os rgos afirmam que o governo tem utilizado artimanhas contbeis e, ainda assim, no cumpre as metas de superavit primrio. Sem o esforo oramentrio, o endividamento federal voltar a subir. "A dvida pblica vem crescendo de forma preocupante, e o principal motivo  o excessivo aumento na concesso de emprstimos via bancos pblicos", diz Felipe Salto, economista da consultoria Tendncias. "O financiamento ao BNDES, por exemplo, passou de 14 bilhes de reais, no comeo de 2008, para 360 bilhes de reais. O mercado pune esse tipo de poltica com juros maiores. O ajuste acaba tendo de se dar sob a forma de um crescimento baixo do PIB", afirma o economista. Para a OCDE, a atuao do BNDES tambm restringe o amadurecimento do mercado de capitais, com recursos privados. 

O ATRASO NA EDUCAO
Pessoas de 25 a 34 anos com ensino superior completo
COREIA DO SUL 64%
JAPO 59%
RSSIA 56%
EUA 43%
CHILE 41%
ESPANHA 39%
MXICO 23%
BRASIL 13%
Fonte: OCDE

ANA LUIZA DALTRO
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5# INTERNACIONAL 30.10.13

     5#1 VOC OS TERIA COMO VIZINHOS?
	5#2 ASTERIX, AGORA SEM OS DOIS PAIS
	5#3 PUNIO EXEMPLAR

5#1 VOC OS TERIA COMO VIZINHOS?
 a pergunta que boa parte dos cidados da Unio Europeia faz aos polticos que defendem a livre circulao de ciganos pelos pases que a compem.
MARIO SABINO, DE PARIS

     Se voc visitou recentemente Paris ou outra grande capital da Europa Ocidental, talvez j tenha presenciado a seguinte situao: um homem, ou uma mulher, aborda gentilmente um turista, mostra-lhe um anel de ouro e pergunta: "Acabei de encontrar, por acaso  seu?". Do estado de surpresa, sem falar direito a lngua local, o turista pode entrar no modo de ganncia e responder que sim. O desconhecido, ento, entrega-lhe o anel e pede uma recompensa, porque, afinal de contas, como a vida anda difcil, ele merece ser retribudo pela honestidade e coisa e tal. Achando-se muito esperto, o turista lhe d at 30, 40 euros pela joia, que, evidentemente, no  joia coisa nenhuma. Ele acaba de cair, assim, num dos golpes mais utilizados por ciganos para separar o otrio metido a malandro do seu prprio dinheiro. Ardis cotidianos como esse, associados a uma fama j ruim de ladres contumazes  eles so apontados como os responsveis pela maior parte dos pequenos furtos , fazem dos ciganos a etnia mais explicitamente rejeitada da Unio Europeia (UE), num perodo de recrudescimento da xenofobia e do racismo no continente como um todo. A rejeio atinge mais visivelmente os ciganos oriundos da Europa Oriental. 
     Existe, de verdade, uma "questo cigana" na Unio Europeia? Os que respondem "no" afirmam se tratar de preconceito amplificado pela propaganda alarmista da extrema direita. Completam dizendo que, se os demais pases da UE seguissem o modelo de integrao da Espanha, onde h um grande nmero de gitanos desde muito tempo, os problemas seriam evitados. Os que acreditam na existncia da "questo cigana", e entre eles no h s xenfobos ou racistas, repetem as estatsticas de delitos, apontam a degradao urbana causada pelos acampamentos levantados por eles nas periferias e contabilizam o aumento nos custos sociais. Para completar, defendem a ideia de que se reveja a entrada da Romnia e da Bulgria no espao Schengen, de livre circulao de pessoas no interior da maioria dos pases da EU, marcada para janeiro do prximo ano. 
     Como os dois pases so os maiores "exportadores" de ciganos para a Europa Ocidental, teme-se que a franquia total das fronteiras cause um xodo ainda maior rumo ao lado mais rico do continente. Receia-se, ainda, o aumento dos "roubos itinerantes", um desdobramento moderno do nomadismo inerente  tradio cigana. A Holanda, em  especial,  vtima de bandos de ciganos romenos e blgaros que viajam a cada ms at Amsterd e outras cidades do pas, a fim de roubar carros, celulares e outros objetos de valor, revendidos dias depois em Bucareste e Sofia. A pesquisadora Dina Siegel, do Instituto Willem Pompe de Direito Penal, da Universidade de Utrecht, concluiu, depois de cinco anos de estudos, que tais larpios so extremamente profissionais e obedecem a chefes que encomendam o que e quanto roubar. "H um lobby gigantesco que protege os ciganos. Eu quebro o tabu. No  opinio pessoal,  constatao: os batedores de carteira, os mendigos, os ladres itinerantes so, na maioria, ciganos", diz ela. 
     "A vocao dos ciganos  voltar para a Romnia ou a Bulgria", disparou o ministro do Interior francs, Manuel Valls, para escndalo das hostes socialistas da qual  integrante. Uma grande parcela dos seus compatriotas, no entanto, concorda com o bonito de origem catal. A "questo"' parece ser um fato para quem viu crescer para 400 a quantidade de acampamentos existentes na Frana, 130 deles nos arredores de Paris. Aos polticos que os defendem, indagam se eles os teriam como vizinhos, interrogao replicada em outras naes da UE. H duas semanas, Leonarda Dibrani, uma cigana de 15 anos, incendiou o debate. Depois de ser extraditada para o (at onde se sabe) natal Kosovo, juntamente com a sua famlia, por ter sido flagrada sem documentos durante uma excurso escolar, chusmas de adolescentes manifestaram-se pelo seu retorno. 
     O presidente Franois Hollande viu nisso uma chance de melhorar a sua imagem. Foi para a televiso e fez duas coisas erradas: declarou que permitiria a volta de Leonarda, desde que sem a famlia, e que as escolas se tornariam "santurios''  ou seja, ficariam fora do alcance do brao da lei. Conseguiu desagradar a todo mundo,  esquerda e  direita. Hollande se mostra to sedento por popularidade a qualquer custo que corre o risco de cair no golpe do anel de ouro. 

UMA TRIBO DE MILHES
Quase um sexto dos ciganos da Europa est na Romnia, de onde comearam a se espalhar pela parte ocidental do continente, depois da entrada do pas na EU.
REINO UNIDO 225.000
ESPANHA 750.000
FRANA 400.000
ALEMANHA 105.000
REP.CHECA 200.000
USTRIA 35.000
ESLOVQUIA 490.000
HUNGRIA 750.000
ROMNIA 1,85 milho
BULGRIA 750.000
GRCIA 175.000
ITLIA 150.000
DONTE: Conselho da Europa


5#2 ASTERIX, AGORA SEM OS DOIS PAIS
Pela primeira vez sem Goscinny nem Uderzo, os seus criadores, o personagem gauls tem um lbum lanado com tiragem recorde: 2 milhes de exemplares s na Frana.

     Asterix, o gauls,  um personagem to famoso que, mesmo entre os brasileiros incultos, que jamais leram uma histria em quadrinhos protagonizada por ele, o seu nome concorre com o infame "asterstico", para rebatizar o sinal asterisco. Criado em 1959 por Ren Goscinny, autor das histrias, e Albert Uderzo, o desenhista das tiras. Asterix teve o 35 lbum lanado na semana passada na Frana e em outra dezena de pases: Asrerix entre os Pictos, uma aventura que se passa na Esccia. Como no poderia deixar de ser, acompanhado do balofo Obelix, o heri cmico tem de se haver com os romanos, a cujo imprio a tribo dessa gente com nomes terminados em "ix" (de Vercingetorix, o lder da antiga Glia de verdade) resiste graas a uma poo mgica que os torna fortssimos.  o primeiro lbum que no conta com a participao dos seus criadores. Goscinny, morto em 1977, deu lugar a Jean-Yves Ferri. Uderzo, que tambm vinha escrevendo as histrias desde o desaparecimento de Goscinny, foi substitudo por Didier Conrad. 
     A editora Hachette, dona dos direitos de Asterix, fechou 2012 no azul, por causa, principalmente, da trilogia Cinquenta Tons de Cinza. Neste ano, aposta em Asterix entre os Pictos para repetir o desempenho  deve ser a poo mgica da Hachette, como dizem os jornais parisienses. Como se v, tambm a Frana j foi mais intelectualizada. Foram impressos 2 milhes de exemplares do novo lbum  a mais alta tiragem de todos os tempos  e lanada uma verso em formato digital. Da estratgia comercial faz parte uma exposio aberta h pouco, na Biblioteca Nacional, acompanhada do catlogo Asterix de A a Z. A entronizao no panteo cultural de criaes populares, uma inveno local, nunca fez mal aos negcios. 
     No universo das HQs, o baixinho Asterix  o personagem de lngua francesa de maior estatura. As suas peripcias venderam, ao todo, 350 milhes de exemplares, 100 milhes a mais do que as de Tintim, o outro peso-pesado do mesmo pedao. Depois da Frana, a Alemanha  o pas que mais consome as histrias em quadrinhos do gauls. H um parque temtico nas proximidades de Paris que compete com a Disneylndia europeia, os quatro filmes da srie em que Grard Depardieu interpreta Obelix estouraram na bilheteria e os licenciamentos vo bem, obrigado. Incluem biscoitos, a emisso de moedas comemorativas pela Casa da Moeda de Paris e, claro, joguinhos eletrnicos. 
     Asterix tornou-se uma marca milionria depois da morte de Goscinny, quando o seu scio Uderzo demonstrou ser igualmente timo nos desenhos financeiros. Est pagando um preo. Hoje, aos 86 anos, ele enfrenta uma batalha jurdica com a sua filha, Sylvie. Ela no queria que a Hachette adquirisse os direitos de Asterix e publicasse lbuns feitos por terceiros, relutou em vender a sua parte  editora e, depois de vrias altercaes judiciais, acusa atualmente ex-assessores de Uderzo de o terem manipulado, aproveitando-se da idade provecta do ilustrador. No incio da disputa, ela chegou a dizer que Asterix era o seu "irmo de papel" e que lutava contra os "piores inimigos" do gauls: os homens da indstria e das finanas. Asterisco, "asterstico": nem s os romanos so uns neurticos. 
MRIO SABINO, DE PARIS


5#3 PUNIO EXEMPLAR
Ao suspender um bispo alemo acusado de levar uma vida luxuosa, o papa Francisco segue fielmente o roteiro de limpeza da Igreja desenhado no pontificado de Bento XVI.

     O papa Francisco no perdoou. Na quarta-feira 23, ele suspendeu as atividades do bispo Franz-Peter Tebartz-van Elst, da diocese de Limburgo, na Alemanha. A deciso foi tomada depois de uma reunio a portas fechadas entre o pontfice e o prelado, realizada no Palcio Apostlico, no Vaticano. Aos 53 anos, alcunhado de o "bispo do luxo", Tebartz-van Elst gastou 31 milhes de euros (o equivalente a 92 milhes de reais) na construo de um suntuoso complexo residencial.  custa do dinheiro dos fiis, as estripulias financeiras do bispo incluem uma capela privada de 2,9 milhes de euros (8,7 milhes de reais), uma mesa para reunies de 25.000 euros (75.000 reais) e uma banheira de 15.000 euros (45.000 reais). At que terminem as investigaes da Santa S, Tebartz-van Elst est proibido de exercer suas funes. Pelas leis da Igreja, problemas de ordem financeira em geral no levam  expulso, ao contrrio de outros crimes, como pedofilia, quebra do celibato ou aes contra a liturgia crist.  improvvel, no entanto, que o alemo retorne a sua diocese  e  rotina tristemente nababesca. 
     Francisco, como de hbito, demonstrou coerncia com sua pregao. O pontfice, contudo, dificilmente conseguiria agir de maneira to sumria e transparente se as mazelas da Igreja no tivessem sido escancaradas com a renncia de Bento XVI, em fevereiro passado. Francisco assumiu com fora para continuar a faxina moral iniciada por Ratzinger. O papa alemo, ressalve-se, enfrentou um caso similar ao de Tebartz-van Elst. Em 2011, afastou o arcebispo Marjan Turnsek, da arquidiocese de Maribor, na Eslovnia, por m gesto. Durante os vinte anos de episcopado, Turnsek criou um imprio de comunicao, com TVs, rdios e produtoras de vdeo. As dvidas contradas nesse perodo chegaram a 800 milhes de euros (2,4 bilhes de reais). 
     A deciso de nomear ou afastar um bispo  prerrogativa exclusivamente papal. Antes de Bento XVI, os pontfices costumavam se manifestar apenas em casos que ferissem os dogmas da Igreja e a doutrina crist. Foi o que aconteceu com o arcebispo francs Marcel Lefebvre (1905-1991). Ele se recusou a seguir as modernizaes trazidas  Igreja pelo Conclio Vaticano II, na dcada de 60. Alm disso, Lefebvre ordenou bispos sem autorizao de Roma. Em 1988, foi excomungado por Joo Paulo II. 
ADRIANA DIAS LOPES
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6# ESPECIAL 30.10.13

	6#1 CRIME EM NOME DO AMOR
	6#2 NOSSO POVO NA SELVA
	6#3 COM OS RUSSOS  OUTRO PAPO
	6#4 O QUE SENTEM OS ANIMAIS
	6#5 NOSSA ETERNA GRATIDO

6#1 CRIME EM NOME DO AMOR
Os ativistas passaram por cima das leis para libertar ces. A sensibilidade exacerbada com o bem-estar dos animais  uma marca do nosso tempo, mas no  por ser legtimo que esse sentimento permite o vale-tudo.
ALEXANDRE ARAGO E BELA MEGALE

     Babaloo escapou. Tiffani, Muleca, Barriguinha, Jack e Tequila tambm conseguiram a liberdade e viraram smbolos de uma ardente discusso sobre os limites entre o bem-estar dos animais e a necessidade de submet-los a sacrifcios em benefcio da sntese de novos remdios. Babaloo, Tiffani, Muleca, Barriguinha, Jack e Tequila so seis dos 178 ces da raa beagle roubados do Instituto Royal, em So Roque, cidade a 62 quilmetros de So Paulo. O resgate dos cachorros, na madrugada de sexta-feira 18, marcou a entrada do Brasil na corrente de pensamento muito ativa em outras partes do mundo que considera legtimo o uso da fora para libertar cobaias de laboratrio. Afinal, o que deve merecer a proteo das leis, o bem-estar dos ces ou o avano da cincia em benefcio da humanidade, mas tambm dos prprios animais?  um difcil dilema. 
     Criado em 2005 a partir da fuso de dois laboratrios universitrios, o Royal tinha em andamento nove pesquisas que usavam animais. VEJA obteve detalhes de trs delas. A primeira era destinada a estudar a eficincia e a toxicidade de uma substncia vegetal natural que poderia vir a ser usada como antibitico. A segunda pesquisa se dava em torno do poder de uma molcula sinttica com potencial anticancergeno patenteada por cientistas brasileiros. O terceiro experimento envolvia um medicamento contra o cncer cuja patente internacional expirou e um laboratrio nacional buscava dados para embasar o pedido de certificao com vistas a produzir o remdio no Brasil. O uso de ces nesse tipo de pesquisa  uma prtica mundial que, no Brasil, tem amparo legal. Ento,  ingnuo e errado imaginar que os cientistas do Instituto Royal so verses de jaleco branco da Cruella de Vil, a vil do filme 101 Dlmatas, dos estdios Disney, vivida nas telas pela atriz Glenn Close. 
     O Royal  o principal centro de testes desse tipo no Brasil e tem entre seus clientes grandes laboratrios, como o Cristlia, o maior fabricante de anestsicos da Amrica Latina. O roubo dos animais provocou uma perda significativa de patrimnio. " um retrocesso. Foram dez anos de patrimnio gentico perdidos", lamenta Joo Pgas Henriques, um dos fundadores do instituto. A invaso do Royal foi precedida de denncias annimas de que os beagles sofriam maus-tratos ali. Como as sufragistas inglesas do comeo do sculo XX na Inglaterra que queimavam igrejas e vitrines de lojas, as mulheres brasileiras defensoras dos animais recorreram a gestos de alta dramaticidade. Duas delas se acorrentaram aos portes do instituto e anunciaram estar em greve de fome. O movimento ganhou volume na quinta-feira 17, quando circulou o boato de que doze cachorros haviam sofrido eutansia e o restante seria retirado de l assim que as ativistas fossem para uma reunio na prefeitura. "Comeamos a chamar gente pelo Facebook", conta Adriana Khouri, 46 anos, uma das lderes do protesto. Por volta das 2 horas da madrugada, quando o apelo tinha sido atendido por mais de uma centena de pessoas, os ativistas invadiram o instituto. Eles levaram os cachorros e os coelhos, mas os ratos foram ignorados. Ao sarem, quebraram computadores e arquivos com dados dos experimentos. Na tarde seguinte, vndalos mascarados, que, por lenincia das autoridades, passaram a fazer parte da paisagem urbana das grandes cidades brasileiras, atearam fogo a carros da polcia e de uma emissora de televiso. 
     O uso de animais em pesquisas  aceito como prtica civilizada dentro de limites legais. Essas atividades precisam ser autorizadas pelo Conselho Nacional de Controle de Experimentao Animal, rgo do Ministrio da Cincia e Tecnologia. No existem indcios de que o Instituto Royal desrespeite essas leis. Sempre que foi vistoriado, o Royal saiu-se bem. Neste ano, as autoridades determinaram que o instituto fizesse melhorias nas instalaes dos beagles, mas no encontraram evidncias de maus-tratos. "As exigncias necessrias para o licenciamento do uso de animais em pesquisas foram finalizadas no ano passado", afirma Marcelo Morales, coordenador do conselho. 
     Oito ativistas ouvidos por VEJA no se arrependem da invaso. Eles consideram que a misso de liberar animais em sofrimento est acima de questes legais. "Para mim, os criminosos so eles", afirma a apresentadora Luisa Mell, 35 anos. O perfil mais comum da defensora intransigente dos animais  a mulher de classe alta, entre 30 e 50 anos, sem filhos, sempre pronta a adotar um bicho abandonado. Algumas, mais radicais, so vegetarianas e recusam-se a vestir roupas ou usar acessrios feitos de couro natural. Ao escolherem cosmticos, exigem que no tenham sido testados em animais. Citam autores que garantem ser um anacronismo o uso de animais como cobaias. Mas, como se pode perceber na reportagem da pgina 104, as cobaias ainda prestam grandes servios  cincia. 

PELA CINCIA
Um dos fundadores do Royal, Joo Pgas Henriques, e a gerente-geral, Silvia Ortiz, defendem a necessidade de animais nas pesquisas e prometem processar os ativistas. "So dez anos de patrimnio gentico perdidos.

O INVASOR TROVADOR
H nove anos o professor Leandro Ferro, 26 anos, lidera manifestaes contra o "uso de animais como mercadoria". J invadiu uma arena de rodeios ("Quem disse que um cavalo foi feito para ser montado?") e protestou na frente do Instituto Srio-Libans de Ensino e Pesquisa. Na militncia, quase sempre na companhia de seu violo, ganhou o apelido de "Leandro ativista", fama de bonito e centenas de amizades no Facebook. Durante a madrugada da invaso e depredao do Instituto Royal, protestava pacificamente at ver um beagle morto e congelado. "Perdi a conta de quantos cachorros carreguei, mas sei que vivi um momento histrico." 

NA TEORIA E NA PRTICA
Desde antes de deixar a televiso, h dois anos, Luisa Mell abraou a defesa dos animais. Por isso,  acusada de usar a causa para se promover e manter a fama. Ela rebate recitando a cartilha do ativista:  vegetariana, leu Liberdade Animal (do australiano Peter Singer, considerado a bblia do movimento) e assistiu aos principais filmes sobre o assunto. Trocou cosmticos de grife por base, lpis de olho e rmel que no contm derivados de animais. E prefere bolsas da estilista-smbolo da tribo, Stella McCartney, filha do ex-beatle Paul McCartney.


6#2 NOSSO POVO NA SELVA
Por que ser que agora, no auge da civilizao tecnolgica, se valoriza tanto a ideia de abandonar tudo e voltar ao mundo natural? Antes de tentarmos o mergulho no atraso,  bom lembrar que no tem volta
EURPEDES ALCNTARA

Sou homem. Nada do que  humano me  estranho", j dizia o romano Terncio, dramaturgo de apenas relativo sucesso do segundo sculo antes de Cristo. Mas temos de concordar com ele. Eta espcie complicada esta nossa. Depois de ralar durante milnios para construir uma civilizao tecnolgica com avies, carros, internet, vacinas, antibiticos e anestesia, o bacana agora  lutar pela volta ao mundo natural. Depois de experimentar toda a sordidez da servido humana aos mais sanguinrios tiranos e de sofrer no lombo os mais odiosos arranjos coletivistas totalitrios, ainda temos entre ns quem se encante com aiatols-presidentes, muls-chefes de polcia e caudilhos latino-americanos cobertos de adereos indgenas, medalhas no peito ou pancake no rosto. Depois de rios de sangue derramados para arrancar dos poderosos o compromisso inarredvel com os direitos humanos, a justia igualitria, o rodzio pacfico de poder, a organizao econmica baseada no respeito  propriedade, aceitamos que mascarados aterrorizem as grandes cidades quebrando e queimando indiscriminadamente apenas porque esto incomodados com o estilo de vida da maioria. Depois do sacrifcio dos mrtires que deram a vida para impor o uso apenas legtimo da fora pelos governantes, impedindo que o Estado use brucutus para impor a vontade dos ricos sobre os pobres, dos fortes sobre os fracos, ficamos contra os policiais que tentam impedir o triunfo do reino de terror nas ruas. Depois de tudo isso, esquecemos que o que nos trouxe ao atual estgio civilizatrio foi o trabalho obstinado e austero de mentes brilhantes em ambientes monsticos e idolatramos os barulhentos ativistas.
     Esse  o dilema oculto do ativista, a pessoa que se cansou de esperar que as coisas ocorram naturalmente da maneira como ela imagina, e vai  luta para tentar embicar o mundo para o rumo que ela acha certo e com o uso das armas que ela prpria acha conveniente usar. Os ativistas que libertam ces em So Paulo, que quebram vitrines em Londres e Paris, que se propem a ocupar Wall Street, em Nova York, tm em comum a ideia de que a lei e a ordem existem apenas para garantir o modo de vida das pessoas das quais eles discordam  ou, frequentemente, que eles odeiam. Outro ponto comum, em geral inconsciente, para a maioria deles,  a negao do que em sociologia se chama "contrato social", que nada mais  do que a aceitao da tese de que sua liberdade termina onde comea a do outro. Os filsofos da baderna sustentam que isso que denominamos civilizao no passa de uma grande e castrante priso,  qual somos moldados desde o nascimento, primeiro pelo amor materno e paterno, depois pela educao formal, mais tarde pela democracia representativa, pelo consumo, pela arte degenerada e pelos remdios antidepressivos. 
     Para quem pensa assim, ns todos vivemos uma vida vicria, uma vida substituta, uma vida no lugar da verdadeira vida que est... que est... que est onde? Ora, na natureza, no mundo selvagem, nas selvas, florestas e savanas, na cova dos lees onde seremos recebidos com lambidas fraternas como aquelas que as feras ofereceram ao profeta Daniel. O que muito se discute atualmente  se a ideia de que o homem solto na natureza, fora do alcance das leis, das instituies, completamente alheio s convenes sociais, estaria mesmo condenado  perverso moral e ao sofrimento fsico, vtima da "guerra de todos contra todos", como o ingls Thomas Hobbes disse ser a vida humana "em estado natural".  disso que se trata. A vontade de ser seu prprio juiz, nico e absoluto, do que  certo ou errado  o trao filosfico que une os ativistas que desprezam as leis, que lutam contra moinhos de vento ditatoriais em pleno regime democrtico, contra as injustias sociais em um Brasil onde h pleno emprego, contra a violncia policial quando so eles que mais agridem e vandalizam. Thomas Hobbes escreveu que, fora dos arranjos sociais em que as pessoas obedecem a regras em troca do direito  convivncia em sociedade, a vida do homem  "solitria, pobre, srdida, brutal e curta". Hoje, o bacana  apostar que Hobbes pensou errado e que a verdadeira conquista  escapar dos contratos sociais. O preo a pagar para testar aquela hiptese  muito alto. Como  impagvel tambm o preo de um mundo sem ativismo, sem idealismo, sem sonhos. 
     O engajamento solidrio em causas consideradas justas  uma das grandes conquistas da modernidade. Divisor de guas  o caso do jovem capito Alfred Dreyfus, judeu falsamente acusado de espionagem e condenado no fim do sculo XIX em uma Frana antissemita. A injustia contra ele foi to flagrante que se mobilizaram em sua defesa cientistas, artistas, escritores e estudantes . "Meu dever  falar, no quero ser cmplice. Minhas noites seriam atormentadas pelo espectro do inocente que paga, na mais horrvel das torturas, por um crime que ele no cometeu", dizia a famosa carta aberta ao presidente da Repblica escrita por mile Zola em um jornal sob o ttulo: "Eu Acuso...!". Por serem homens de letras e de cincias, os defensores de Dreyfus eram chamados de modo depreciativo de "intelectuais". Logo o termo ganhou a conotao positiva de "sbio engajado". Claro que havia idealismo, sacrifcio e nobreza de esprito antes do caso Dreyfus, mas nunca antes tantas pessoas haviam se mobilizado por uma causa sem que tivessem interesse direto nela  seja partidrio, religioso, nacionalista, patritico ou tnico. Elas se mobilizaram contra uma injustia flagrante. Contra isso sempre valer a pena lutar. 

BOM PARA QUEM, CARA PLIDA?
Na raiz de todo ativismo violento est a noo utpica e errnea de 	que Thomas Hobbes pensou errado e, portanto, a vida selvagem  idlica, prazerosa e fraternal.

A REVOLTA DA VACINA 
No Rio Janeiro, em 1904, o medo da vacinao obrigatria contra a varola gerou protestos violentos na Praa da Repblica.

O SUPER-RATO QUE VENCEU O CNCER
A vida de cobaia no laboratrio do professor Zheng Cui em Wake Forest, no Estado americano da Carolina do Norte, era bem pior do que a dos beagles resgatados do Instituto Royal, de So Paulo. Os assistentes de Cui injetavam clulas cancerosas nos ratinhos. Os roedores desenvolviam a doena, os sintomas eram anotados e, em mdia, um ms depois estavam mortos. Essa era a rotina at que algo extraordinrio aconteceu. Um dos ratinhos no adoeceu depois da injeo de clulas cancerosas. O doutor Cui mandou duplicar a quantidade de clulas cancerosas. Nada. As doses foram quadruplicadas. Nada. Chegou a um ponto em que o ratinho especial estava recebendo doses dirias 1000 vezes maiores do que as dadas s cobaias, volume suficiente para produzir cncer em um ser humano adulto. E nada. Entusiasmados com os resultados, Cui e seus assistentes se apressaram em descobrir o segredo daquela cobaia, j ento apelidada de Super-Rato. Ele foi revirado do avesso, submetido a todo tipo de teste. S um ms depois algum se lembrou de que o Super-Rato poderia morrer sem deixar descendentes. O bicho, ento, foi clonado e arranjaram-lhe esposas em srie. Hoje, clones do Super-Rato e seus filhotes (50% deles herdaram a resistncia ao cncer) esto espalhados pelos grandes laboratrios de pesquisa do cncer no mundo. Isso foi em 2007.  fcil imaginar a extenso do desastre se o Super-Rato tivesse sido roubado por ativistas antes que pudesse ser multiplicado. 


6#3 COM OS RUSSOS  OUTRO PAPO
A gacha Ana Paula Maciel, corajosa marinheira do Greenpeace, assumiu desde pequena a defesa do meio ambiente. Est presa na glida Murmansk, na Rssia.
NATHALIA WATKINS

     De p dentro da gaiola onde, na Rssia, os rus assistem ao prprio julgamento, a brasileira Ana Paula Maciel era, na semana passada, o arqutipo dos modernos combatentes da natureza. Gacha de Porto Alegre, de 31 anos, ela foi presa e levada para a fria cidade de Murmansk, no noroeste da Rssia, em 19 de setembro. Ana Paula estava a bordo do navio de bandeira holandesa Arctic Sunrise, do Greenpeace, uma ONG ambientalista. Na madrugada do dia anterior, o barco se aproximou da plataforma de petrleo Prirazlomnaya, no rtico, e dele saram cinco botes inflveis. Os ativistas pretendiam escalar at o topo da torre de perfurao e cobri-la com uma faixa que alertasse contra os riscos ambientais da explorao de petrleo pela estatal russa Gazprom. Os invasores foram recebidos a tiros e presos pela guarda costeira. Todos os outros tripulantes do barco do Greenpeace e dois cinegrafistas foram levados para uma priso em terra. Na semana passada, a Justia russa desistiu de julg-los por pirataria, a acusao inicial pela qual poderiam ser condenados a at quinze anos de cadeia. Em vez disso, tero de responder por vandalismo, o mesmo crime que no ano passado colocou na priso as integrantes da banda punk Pussy Riot por protestar contra o presidente Vladimir Putin em uma igreja. A pena para os membros do Greenpeace pode chegar a sete anos de deteno. 
     Ana Paula no estava nos botes inflveis e, portanto, no participou da tentativa de invaso da plataforma. O trabalho da brasileira era mais prosaico. Ela era marinheira, cuidava da limpeza e carregava mantimentos no Arctic Sunrise, Os turnos eram pesados. Ela e os tripulantes trabalhavam entre cinquenta e sessenta horas por semana, revezando-se em plantes. O salrio mensal mdio  de 1300 euros, o equivalente a 4000 reais  nada que compense os riscos do ecoativismo no mar e de enfrentar a punio de um regime autoritrio como o russo. Ana Paula foi parar na gaiola em Murmansk, portanto, por puro amor  causa. "Minha filha sempre quis defender a natureza", diz a me, Rosngela Maciel, motorista de van escolar. Na infncia, Ana Paula vivia em uma casa com um quintal espaoso. Pegava cachorros na rua e os levava para dentro, para cuidar deles. "Chegamos a ter mais de quinze ces", conta Telma, sua irm. 
     O desejo de entrar para o Greenpeace consolidou-se na adolescncia. Bem ao estilo de outros jovens idealistas com pressa de mudar o mundo, Ana Paula tinha o hbito de coletar assinaturas para causas a favor do meio ambiente e, chegado o momento do vestibular, escolheu um curso que, na viso dela, facilitaria a entrada no universo do ativismo profissional. Durante a faculdade de biologia, Ana Paula deu aulas sobre ecologia de graa em escolas pblicas. Segundo a irm, ela nunca se interessou em ter um emprego formal, mas estava sempre pronta para doar o seu tempo a causas diversas em defesa da natureza e dos animais. Tanto que mal tirou o diploma do canudo. Em 2006, aos 24 anos, com pouco tempo de formada, Ana Paula soube que um navio do Greenpeace atracaria em Porto Alegre e precisava de voluntrios. Sua me levou-a de madrugada ao porto, para ser a primeira da fila de candidatos. Ana Paula conseguiu um estgio como assistente de cozinha. Em seguida, foi promovida a marinheira. J no primeiro ano embarcada participou de um protesto contra a caa de baleias que lhe rendeu trs dias numa cadeia no Caribe. Antes de ser detida na Rssia, ela passava trs meses no mar e trs em terra. 
     A exemplo de outras ONGs ecoxiitas, o Greenpeace, fundado em 1971, sobrevive de doaes de simpatizantes e do trabalho de voluntrios que admiram a coragem e a abnegao de pessoas como Ana Paula. "A estratgia do Greenpeace  criar uma polarizao, em que os seus membros so retratados como heris profissionais lutando contra um inimigo maior. Para muitos jovens, fazer parte disso  a chance de dar um sentido  prpria existncia", diz o consultor e ambientalista Fbio Feldmann, de So Paulo, que j esteve a bordo de um navio da entidade. Para difundir essa imagem, o Greenpeace investe em aes grandiosas, que rendam boas fotos e ateno mundial. "A perseguio aos nossos integrantes, como agora, na Rssia, s aumenta o sentimento de solidariedade e a adeso de voluntrios ao grupo", diz Srgio Leito, diretor de polticas pblicas do Greenpeace no Brasil. A ONG questiona a explorao de petrleo no rtico e quer que a rea permanea intocada. De fato,  at quatro vezes mais demorado remover e dissipar um vazamento em guas geladas do que em mares tropicais. Exigir a moratria da explorao no rtico, porm,  um exagero. "Com investimentos redobrados,  possvel extrair o petrleo nessa regio com segurana", diz o engenheiro oceanogrfico David Zee, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. 
     Faz parte da estratgia do Greenpeace radicalizar nas exigncias, frequentemente com base em estudos cientficos fajutos, para conseguir ao menos algumas conquistas intermedirias. Em 2007, por exemplo, a Apple aceitou suspender o uso de mercrio e outros poluentes na fabricao de seus monitores. O que a ONG queria, na verdade,  que a Apple e outras marcas reciclassem aparelhos eletrnicos velhos, mas comemorou a meia vitria. Na quinta-feira passada, um pedido de Ana Paula para responder s acusaes em liberdade sob fiana foi negado pela Justia russa. "Ela s quer salvar aquilo que o homem quer destruir, e faz isso por mim e por todos ns", diz sua me. 


6#4 O QUE SENTEM OS ANIMAIS
Embora a esperteza e a "inteligncia" dos bichos de estimao sejam supervalorizadas por seus donos, a cincia prova, que muitas espcies desenvolveram capacidades que dependem da conscincia.
FERNANDA ALLEGRETTI

     Quem tem animais de estimao em casa pouco se importa com as constataes cientficas sobre eles. Tem convico de que seu cachorro  mais inteligente que muitos humanos, ou que seu gato faz pipi no sof com premeditada inteno de vingana por alguma bronca recebida. Exemplos da perspiccia animal no faltam. No incio deste ano, a gata Holly virou celebridade nos Estados Unidos por ter encontrado o caminho de volta para casa, aps se perder durante uma viagem de frias da famlia. Em oito semanas, Holly percorreu 320 quilmetros entre Daytona Beach e West Palm Beach, na Flrida. No Brasil, o co Beethoven passou de junho a setembro, no mesmo lugar, aguardando seu dono, que havia morrido de infarto. A fidelidade canina rendeu a Beethoven o ttulo de Hachi brasileiro. Hachi  o co akita do filme Sempre ao Seu Lado, estrelado por Richard Gere e baseado em uma histria real, na qual um co ficou anos voltando a uma estao de trem  espera de seu mestre. A paixo pelos bichos de estimao e a admirao por seus feitos so universais e vm de tempos imemoriais. Inspiraram uma mirade de escritores. O poeta chileno Pablo Neruda tem entre suas obras mais lembradas a Ode ao Gato, na qual o define como "pequeno imperador sem orbe, conquistador sem ptria, mnimo tigre de salo, nupcial sulto do cu das telhas erticas". 
     Os orgulhosos donos de pets e os poetas tm certa razo em seu descrdito nas evidncias cientficas de que os bichanos no tm a inteligncia que lhes  imputada. A cincia no sabe explicar como Holly encontrou o caminho de casa ou como Beethoven manteve viva por tanto tempo a expectativa da volta de seu dono. Em contrapartida, h cada vez mais provas de que o nvel de conscincia animal  maior do que se imaginava. No ano passado, 25 neurocientistas assinaram uma declarao atestando que as estruturas do crebro responsveis pela produo da conscincia so anlogas em humanos e outros animais, incluindo todos os mamferos, algumas aves e criaturas como o polvo. O documento ganhou forma em uma conferncia na Universidade de Cambridge. Um dos signatrios  Philip Low, o criador do iBrain, aparelho que permitiu a leitura das ondas cerebrais do fsico Stephen Hawking. Disse Low a VEJA: "Podemos afirmar que os animais so conscientes com a mesma certeza que afirmamos que outro ser humano  consciente". 
     Entende-se por conscincia a capacidade de perceber aquilo que se passa dentro e fora de si. H diferentes formas de mensur-la. A indicao mais bsica de que existe  a noo da prpria existncia, presente em vrios animais. Para comprov-la, costuma-se aplicar o teste do espelho, no qual o bicho  colocado para interagir com seu prprio reflexo. Macacos de grande porte, golfinhos, elefantes, orcas e porcos passam com louvor nesse tipo de avaliao. J ces, gatos e bebs humanos so reprovados. Como  praticamente impossvel identificar se o macaco realmente entende que est refletido no espelho ou se imagina tratar-se de outro animal ou de um brinquedo, muitos pesquisadores preferem avaliar a conscincia de acordo com a ateno e a capacidade de aprendizagem. 
     Um estudo apresentado neste ms por neurocientistas da Universidade de St. Andrews, na Esccia, demonstrou que os elefantes so capazes de entender o gesto humano de apontar o dedo sem nenhum tipo de treino prvio. Poucos animais tm essa habilidade. Os cachorros, por exemplo, s a desenvolvem com adestramento. Por outro lado, os ces se saem muito bem em avaliaes de sentimento. Tambm neste ms, o neurocientista Gregory Berns, professor da Universidade Emory, nos Estados Unidos, publicou um artigo no jornal The New York Times no qual afirma que os cachorros sentem mais emoes do que se pensa. Berns usou aparelhos de ressonncia magntica para analisar a estrutura cerebral dos ces e constatou semelhanas com a dos seres humanos no que diz respeito  constituio e ao funcionamento do chamado ncleo caudado, regio associada s emoes positivas. Escreve Bers: "A capacidade de experimentar sentimentos, como o amor e o apego, significa que os ces tm um nvel de sensibilidade comparvel ao de uma criana. Essa capacidade sugere que devemos repensar a forma como os tratamos". 
     O naturalista Charles Darwin foi um dos pioneiros em perceber as formas peculiares da inteligncia dos bichos, no livro A Expresso das Emoes no Homem e nos Animais, de 1872. Aps observar animais domsticos e selvagens, Darwin concluiu que a habilidade de expressar emoes  algo que compartilhamos com vrias outras espcies. E mais: que os "movimentos expressivos" tambm so fruto da evoluo  consolidaram-se ao longo do tempo. 
     No livro A Era da Empatia, publicado em 2009, o bilogo holands Frans de Waal defende a tese de que um animal  capaz de se colocar no lugar de outro e at de sentir compaixo. De acordo com Waal, h trs nveis de empatia. Na base, esto animais como a galinha e os hamsters, que conseguem identificar o sentimento de seu par e, eventualmente, ser contagiado por ele. Chimpanzs e elefantes esto entre os animais com maior grau de emparia e, assim como os humanos, so capazes de entender que outros indivduos pensem e ajam de maneira distinta. 
     Os animais de grande porte no so os nicos que surpreendem com sua capacidade de aprendizado. O papagaio-cinzento  considerado uma das aves mais inteligentes do mundo. O primeiro espcime a ser estudado tinha at nome. Chamava-se Alex e era o bicho de estimao da neurocientista Irene Pepperberg, da Universidade Harvard. Entre os anos de 1977 e 2006, Irene e seus colegas avaliaram que Alex tinha a fala desenvolvida, era capaz de guardar mais de 100 palavras, reconhecer cores, entender a diferena entre maior e menor e fazer associaes. Um dos maiores mistrios da medicina veterinria est mesmo relacionado s aves. Estudiosos se esforam para compreender como  possvel que pssaros como o trinta-ris-rtico percorram todos os anos 20.000 quilmetros entre o Circulo Polar rtico e a Antrtica. Diz a oceangrafa Danielle Paludo, do Centro de Pesquisa e Conservao de Aves Silvestres: " difcil estudar essas espcies porque elas viajam muito, mas acredita-se que se orientem pelo mar e pelas estrelas. O mais notvel  que seguem rigorosamente a mesma rota, com a preciso de um caa militar". Os animais podem no ser to inteligentes como querem os devotados donos de pets, mas surpreendem com suas habilidades especficas. 


6#6 NOSSA ETERNA GRATIDO
Uma infinidade de remdios que salvam vidas humanas jamais teria sido desenvolvida sem experincias em animais. Eles se sacrificaram por ns.
NATALIA CUMINALE

     Nas salas de pesquisa da Universidade de Toronto, no Canad, a cadela mestia Marjorie era apenas mais uma cobaia de laboratrio. Em 1921, ela sairia do anonimato do "co 33", como era chamada na fria classificao dos cientistas, para fazer histria na medicina. O fisiologista Frederick Banting e seu assistente Charles Best tentavam descobrir qual substncia pancretica seria capaz de conter o diabetes. Removeram o pncreas de outros tantos cachorros e conseguiram, com base nesse material, isolar uma substncia at ento desconhecida. Com o novo composto em mos, era preciso test-lo. A alegre Marjorie foi a escolhida. Banting e Best extraram o pncreas da cadela. Imediatamente o animal foi acometido pelos sintomas mais severos do diabetes  excesso de acar no sangue, urinao frequente, sede exagerada e fraqueza. A partir do momento em que Marjorie passou a receber injees com o composto recm-encontrado, seu quadro geral melhorou. Os sinais da doena foram amenizados. A cadela sobreviveu ainda setenta dias sem o pncreas. Deu-se, naquele laboratrio canadense, a descoberta da insulina, hormnio que possibilita uma vida quase normal a 30% dos 366 milhes de diabticos no mundo. A Marjorie, nossa eterna gratido. 
     Nossos agradecimentos tambm a todos os outros ces que possibilitaram o desenvolvimento dos medicamentos contra a presso alta. Aos coelhos, pelos avanos no tratamento da depresso. Aos porcos, pelas melhoras seminais nos exames de diagnstico por imagem. 
     Aos macacos, pela erradicao da poliomielite. De todos os prmios Nobel de Medicina concedidos at hoje, desde 1901, 88 brotaram com sucesso a partir de estudos com os mais diversos tipos de animal  entre eles, Marjorie. Dadas as conquistas mdicas proporcionadas pelo sacrifcio de animais, soa descabido o ataque de ativistas ao Instituto Royal, nas cercanias de So Paulo. As investigaes sobre possveis maus-tratos em ces da raa beagle e coelhos ainda no terminaram, mas soa incoerente a grita contra o uso de animais em estudos cientficos. Ressalve-se que bichos so utilizados tambm em pesquisas veterinrias. Aquele remedinho que o tot toma em casa s existe graas aos testes com outros animais nos centros de pesquisa. 
     Nas ltimas duas dcadas, com o avano de avaliaes de hipteses cientficas por meio de modelos computacionais, o nmero de bichos usados em pesquisas mdicas caiu  metade. Hoje, apenas 10% de todas as experincias recorrem a animais  o que representa cerca de 60 milhes de cobaias, anualmente, no mundo todo. A ideia , sempre que possvel, dispensar os bichos. Nas grandes empresas de cosmticos, eles foram completamente abolidos graas  produo de peles artificiais, que proporcionam resultados semelhantes aos obtidos com coelhos. No desenvolvimento de novos tratamentos mdicos, contudo, o animal  indispensvel. Diz Freddy Eliaschewitz, diretor do Centro de Pesquisas Clnicas (CPClin), de So Paulo: "Nenhuma mquina ou modelo de computador consegue simular a complexidade de um organismo vivo". Um remdio contra a asma pode at nascer de um programa de computador. Mas no h como testar, em mquinas, sua segurana no crebro, nos intestinos, no fgado e nos rins. Isso s  garantido inicialmente com testes em animais e, depois, nos prprios seres humanos. Alm disso,  filosofia dos pesquisadores mais srios e cuidadosos sempre reduzir a amostra de cobaias e, na medida do possvel, substitu-las por espcies inferiores. Os ratos hoje esto presentes em 75% das experincias. Os cachorros, em especial os beagles, em menos de 1% delas. Uma das espcies que mais tm sumido dos experimentos so os primatas. Ainda assim, seu uso  essencial para as pesquisas de doenas neurodegenerativas e imunolgicas. No fossem os macacos, o neurocientista Miguel Nicolelis, da Universidade Duke, nos Estados Unidos, jamais teria avanado em seus hoje reputadssimos estudos sobre neurofisiologia, em busca de prteses neurais para pacientes vtimas de paralisia. 
     Desde a Antiguidade, os animais desempenham papel essencial na cincia. Galeno ficou conhecido como o pai da vivisseco por seus experimentos em porcos vivos. No sculo XVII, o mdico britnico William Harvey descreveu, a partir da manipulao de cobaias, os detalhes da circulao sangunea do ser humano. As denncias contra o uso de animais em experimentos s ganharam destaque a partir dos anos 70. Um dos casos mais ruidosos foi o dos chamados "beagles fumantes", em 1975. Uma celebrada jornalista inglesa chocou a opinio pblica ao mostrar beagles presos a mscaras, inalando fumaa de cigarro. O volume de gs era enorme  equivalente a trinta cigarros por dia. Com o objetivo de estabelecer a relao entre o tabagismo e o cncer e doenas cardiovasculares, os bichos eram sacrificados e submetidos a necropsia. Foi um escndalo que acelerou o estabelecimento de regras mais rgidas, sobretudo na Inglaterra e nos Estados Unidos. Desde ento, as condies para uso de animais vm sendo aprimoradas, com rgidas ressalvas para garantir o bem-estar das cobaias. 
     No Brasil, pesquisas com animais devem ser submetidas ao Conselho Nacional de Controle de Experimentao Animal (Concea). Os experimentos s devem ser feitos com os animais sedados para no causar "dor nem angstia".  proibido reutilizar uma cobaia depois de ela ter alcanado o objetivo proposto pelo protocolo de pesquisa. Diz Marcelo Morales, coordenador do Concea e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Cincia (SBPC): "Os animais devem ser tratados com dignidade. Os ces, por exemplo, tm de ter tempo de recreao, alimentao especfica e receber cuidados dirios de veterinrios. No  de interesse tico e cientfico que o animal no esteja bem e saudvel". 

TESTES QUE SALVAM VIDAS
Vrias etapas precisam ser concludas at que um medicamento finalmente chegue s farmcias. Os animais so essenciais nesse processo para garantir a eficcia e a segurana de um remdio.
1- Antes de ser testado no animal, um novo medicamento passa por experimentos in vitro  ou seja, em culturas de clulas ou bactrias. O objetivo  verificar se o princpio ativo  txico ou capaz de levar a mutaes genticas nos organismos estudados.
2- Passada essa primeira fase, o medicamento  testado em roedores e, em seguida, em cachorros  quase sempre da raa beagle. 
3- Nas cobaias, os testes servem para determinar a toxicidade do medicamento em estudo, assim como o seu tempo de permanncia no organismo.
4- Depois do experimento, os roedores so sacrificados. Os cachorros, raramente. Os que sobrevivem s experincias passam por um processo de reabilitao para que sejam adotados em seguida.
5- S depois de atestada a segurana do medicamento nos animais, o novo composto entra em fase de pesquisa clnica, com seres humanos.

POR QUE SO USADOS

ROEDORES
Presentes em 75% das pesquisas cientficas
 Tm os sistemas reprodutivo e nervoso semelhantes aos dos seres humanos
  fcil induzi-los a desenvolver doenas comuns aos seres humanos, como cncer, diabetes e Parkinson
 Em virtude de sua baixa expectativa de vida, em apenas dois anos eles passam por todo o processo de envelhecimento  condio til s pesquisas

BEAGLES
Presentes em apenas 1% dos experimentos
 Trata-se de uma raa pura, com poucas variaes genticas, o que garante resultados mais confiveis
 So dceis
 Seu porte mdio facilita a manipulao para testes

PORCOS
Afeitos  experimentao de novas tcnicas cirrgicas
 O tamanho de seus rgos se assemelha ao dos rgos dos seres humanos
 As vlvulas cardacas dos porcos foram utilizadas durante muitos anos para substituir vlvulas humanas doentes

EM QUE SITUAES OS ANIMAIS PODEM SER SUBSTITUDOS
Nos testes de produtos cosmticos. Na dcada de 90, os animais  em geral, coelhos  foram trocados por pele artificial humana. Desde 1998, a Inglaterra probe experincias em animais para a produo de novos cosmticos. Produtos que tenham sido testados em bichos foram vedados na Unio Europeia neste ano.

Fontes: Freddy Eliaschewitz, diretordo Centro de Pesquisas Clinicas (CPClin), de So Paulo; Marcelo Morales, secretrio da Sociedade Brasileira para o Progresso da Cincia e coordenador do Conselho Nacional de Controle de Experimentao Animal (Concea): e Joo Massud Filho, professor de medicina farmacutica da Unifesp e presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Farmacutica.
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7# GERAL 30.10.13

	7#1 GENTE
	7#2 SADE  CORAO ABANDONADO
	7#3 MODA  JAQUETINHA BSICA
	7#4 EDUCAO  S BOLSA FAMLIA NO RESOLVE

7#1 GENTE
JULIANA LINHARES. Com Guilherme Dearo, Marlia Leoni e Thas Botelho

AL, FUTUROS SDITOS
" a primeira vez que ele fica quieto o tempo todo", brincou o prncipe WILLIAM sobre o filhinho GEORGE. Primeira e mais importante: fora a sada da maternidade, o herdeiro nmero 3 do trono britnico nunca havia aparecido em pblico. O pequeno prncipe  daqueles bebs que abrem o berreiro, fato anotado vrias vezes pelo pai e detectado pelos mais curiosos nas bolsas sob os olhos da exultante me, KATE. Pois bem no dia do seu batizado, mesmo vestindo um portentoso mas desconfortvel camisolo de renda  cpia do modelo que vem passando por geraes da famlia real desde 1841 , George se comportou como um reizinho. Para o fotgrafo Jason Bell, que registrou as poses depois da cerimnia religiosa, ele at abriu os bracinhos. Com 3 meses, no pode saber que existem paparazzi. 

A NOIVA QUE FALA JAVANS
O batizado na Inglaterra no foi o nico evento real da semana. Em Java, a ilha da Indonsia, o casamento de GUSTI RATU KANJENG HAYU, a quarta filha do sulto local, com o plebeu KANJENG PANGERAN HARYO NOTONEGORO propiciou trs dias de festividades e rituais, incluindo banhos de purificao e cortejo de doze carruagens. Notonegoro, que trabalha na ONU, em Nova York, quebrou um ovo com os ps para o incio de uma nova vida, mas nada que tenha afetado a maquiagem, os brincos e o sarongue topless, parte dos trajes cerimoniais. O sulto mantm o ttulo tradicional, mas manda mesmo  como governador.

UMA EDITORA QUE NO ENROLA
Depois de mais de duas dcadas na carreira de apresentadora e cantora, do alto de um faturamento de cerca de 12 milhes de reais, ELIANA, 39, agora se tornou uma interessada ativa na alta cultura: coleciona obras de arte e toca uma editora de livros sofisticados. E reflete sobre sua trajetria: 

J sentiu preconceito por se interessar por esse universo? 
No. Fiz curso de arte contempornea, adoro fotografia, especialmente as de Helmut Newton, e aprendo muito com amigos galeristas. 

Ter origem numa famlia humilde foi uma fonte de motivao ou de obstculos? 
As dificuldades foram importantes porque me impulsionaram. Tenho uma personalidade resiliente. 

Qual foi a realizao material que a deixou mais feliz? 
Talvez a compra do meu primeiro apartamento, aos 16 anos. 

Sente que comeou no meio artstico muito cedo? 
Comecei no tempo certo. Ganhei independncia e conheci o mundo. S tenho pena de no ter terminado a faculdade de psicologia. 

Como ser a biografia de Elis Regina, me de seu marido, que voc lana no ano que vem? 
Sou contra censura. No houve nenhuma imposio da famlia. 

Como seu filho Arthur, de 2 anos, aprendeu a contar os dedos das mos? 
Nunca cantei minha msica Dedinhos para ele, que ainda no fala tudo. Quero que descubra sozinho. 

 TUDO FICHINHA
Estudos mostram que em apenas dois em 100 casais a mulher  mais alta que o homem. Isso acontece porque parceiros maiores so um antiqussimo indcio evolutivo de homens com mais recursos e maior probabilidade de gerar filhos saudveis. Nos tempos modernos, homens poderosos tendem a se casar com mulheres mais altas. Num casal como LUCIANA GIMENEZ e MARCELO DE CARVALHO, com alegados 4 centmetros de diferena, d para suspeitar que prevalea a segunda tendncia. No quero mago-lo", desconversa Luciana. Certssima. Ento no vamos nem falar no par formado por LWREN SCOTT e MICK JAGGE.

PELAS CONTAS DO ROSRIO, EDITH
Era para ser um catlogo de fotos inspiradas nos recentes protestos. A atriz BRBARA PAZ, que interpreta Edith, a rejeitada mulher do vilo de Amor  Vida, foi a contratada pela joalheria Sara para se passar por uma dondoca que, em meio a uma manifestao,  presa pela polcia. As fotos caram na rede e no crivo crtico. "A dona noo manda lembrana", escreveu um engraadinho. "A Brbara no era paz?", outro brincou. Laja Zylberman, dona da tradicionalssima marca, defende-se: "Eu no sou black bloc. Sou Mahatma Gandhi! S quis fazer algo polmico e fashion". Pedro Rolim, diretor da campanha,  mais realista: "Disse para a Brbara que o negcio agora  rir junto". s interessadas: o conjunto completo de rabis e brilhantes bate na casa dos 100.000 reais. 


7#2 SADE  CORAO ABANDONADO
Pesquisa revela que no Brasil as mulheres ignoram os fatores de risco das doenas cardacas e tm extrema dificuldade para identificar os sintomas de um infarto
ADRIANA DIAS LOPES

A percepo da mulher brasileira sobre os cuidados com o corao  equivocada. Esse  o resultado do maior levantamento j realizado no pas sobre o tema. A pesquisa Sinta Seu Corao, coordenada pelas revistas SADE e CLAUDIA, publicadas pela Editora Abril, que tambm edita VEJA, em parceria com a Sociedade de Cardiologia do Estado de So Paulo, ouviu 5318 voluntrias. O trabalho foi conduzido pelo Departamento de Pesquisa e Inteligncia de Mercado da Abril. "As brasileiras encararam os distrbios cardacos como um mal tipicamente masculino", diz o cardiologista Roberto Kalil, diretor clnico do Instituto do Corao, em So Paulo. "Enquanto elas subestimarem o problema, continuaro sob ameaa." Atualmente 21 milhes de mulheres brasileiras correm o risco de sofrer um infarto e 39.000 morrem todos os anos em decorrncia do mal  o triplo das vtimas fatais de cncer de mama. A seguir, VEJA lista os principais resultados do estudo e, com a colaborao de cinco cardiologistas, descreve as boas prticas para proteger o corao feminino. 

OS FATORES DE RISCO
Elas subestimam as grandes ameaas 
     As mulheres esto certas ao eleger a hipertenso como o principal inimigo do corao. A doena  responsvel por quase metade dos casos de morte por infarto. Entre elas, a presso alta  ainda mais perigosa do que para os homens. O risco de uma mulher hipertensa desenvolver uma doena cardiovascular  cinco vezes maior em relao a outra que no tem o problema. Entre homens em situao semelhante, o risco  duas vezes maior. O que as desfavorece  a constituio das artrias coronrias. Os vasos femininos so 15% mais estreitos, alm de mais tortuosos, do que os masculinos, o que deflagra mais rapidamente a hipertenso e o entupimento dos vasos. Nada  perfeito, porm. As mulheres erram feio ao subestimar (e muito) alguns fatores de risco extremamente perigosos. Um deles  o diabetes, eleito por apenas 18% das entrevistadas como um risco. Por causa dos vasos mais finos, elas so ainda mais suscetveis aos danos arteriais causados pelo excesso de glicose no sangue. Quatro em cada dez mulheres diabticas morrem de problemas no corao. O mesmo ocorre com trs em cada dez homens com a doena. A depresso, lembrada por apenas 4% das entrevistadas,  tambm um mal tipicamente feminino, dado que o aumento na produo dos hormnios cortisol e adrenalina est associado  hipertenso. 
     Outro fator de risco subestimado pelo sexo feminino, citado por apenas 3% das entrevistadas,  a menopausa. A probabilidade de uma mulher infartar por volta dos 55 anos, com a chegada da menopausa,  duas vezes maior em relao ao organismo mais jovem. O organismo da mulher mais velha sofre uma queda drstica na sntese do hormnio estrgeno, substncia que tem ao vasodilatadora e reduz as taxas de LDL, o colesterol ruim. O sexo feminino deveria estar atento tambm  gordura abdominal. As clulas adiposas que se acumulam na regio da barriga multiplicam-se velozmente, pelo menos duas vezes mais rpido do que as clulas de gordura espalhadas pelo resto do corpo. Essas clulas liberam continuamente substncias associadas ao processo inflamatrio e ao mecanismo de resistncia  insulina. Em quantidades normais, esses compostos no fazem mal ao corao. J em excesso, facilitam o entupimento arterial. Tanto as mulheres que se consideram no peso ideal como as gordinhas desconhecem a medida da prpria cintura. Fica ento o aviso: a medida da cintura nas mulheres no deve passar dos 80 centmetros. Entre os homens, 94 centmetros. 

OS SINTOMAS 
Elas pensam como homem 
     Dois dos trs principais sintomas de problemas cardacos apontados pelas mulheres so, na verdade, caractersticos do organismo masculino. A maioria delas sente nuseas e dores nas costas (itens, a propsito, citados por uma minoria das entrevistadas). No corpo das mulheres, a distribuio dos nervos  diferente. "Nelas, os nervos se ramificam mais em direo s costas,  mandbula e  barriga", diz o cardiologista Raul Dias dos Santos, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de So Paulo (USP). Est a a explicao para os sintomas se manifestarem de forma dissipada. Nos homens, os nervos se irradiam pelo peito. H ainda o paradoxo do estrgeno. O hormnio essencialmente feminino protege as artrias ao participar do mecanismo de flexibilidade da parede dos vasos. O problema  que o estrgeno tambm estimula a produo de protenas que alteram a sensibilidade dos nervos, deixando-os mais resistentes  dor. A desinformao das mulheres sobre os sintomas das doenas do corao representa um enorme perigo  sade. O desconhecimento as faz demorar mais do que os homens para procurar ajuda mdica. Estudo conduzido em 2011 pela Clnica Mayo, nos Estados Unidos, com 104.000 adultos de ambos os sexos, mostrou que elas levam, em mdia, meia hora a mais para procurar um hospital  tempo suficiente para reverter apenas 75% dos problemas cardacos. O atendimento mdico tardio  um dos maiores responsveis pela alta incidncia de mortes por infarto entre elas. 

OS HBITOS DE VIDA 
Elas acertam quase tudo 
     Aqui elas acertaram em cheio na escolha dos alimentos que aumentam o risco cardiovascular. Os produtos industrializados so recheados com sal e gordura saturada. Nesse tipo de alimento, esses compostos so usados no s como ingredientes, mas tambm como conservantes. Ou seja, na alimentao da vida moderna  fcil extrapolar no consumo de sal e de gordura. Hoje, grande parte do sal ingerido na alimentao do brasileiro provm justamente dos produtos industrializados. O mesmo acontece com 50% do consumo de gordura. O sal em excesso  o fator de maior influncia para a presso alta. Alm de aumentar o volume de sangue circulante pelas artrias, o que agride a parede dos vasos, ele tem ao vasoconstritora. A gordura saturada eleva o colesterol ruim (LDL), abrindo caminho para o infarto e a aterosclerose. A anatomia do organismo das mulheres no colabora. As artrias femininas, por serem 15% mais estreitas, esto mais propensas aos fatores de risco que levam ao entupimento. Alm disso, h um detalhe no mecanismo de ao das placas de gordura no organismo delas que faz a diferena  mais uma vez para pior, infelizmente. Nas mulheres, as molculas de gordura tendem a fechar mais rapidamente as artrias. Nos homens, elas primeiro expandem as paredes arteriais, para s depois obstruir os vasos. Tal caracterstica faz com que a obstruo seja mais grave entre elas. Diz o cardiologista Leopoldo Piegas, do Hospital do Corao, em So Paulo: "Para uma mulher, o risco de morrer depois de um infarto tende a ser maior do que para um homem". 
     H dois erros graves na escolha dos alimentos nocivos ao corao, porm: elas afirmam que o caf e o ovo esto associados a doenas cardiovasculares. Inmeros estudos j derrubaram essa crena. At meados dos anos 90, acreditava-se que o caf era prejudicial  presso arterial. Mito. "De fato, a bebida aumenta as taxas de presso, mas a elevao  mnima e temporria", diz Marcus Bolvar Malachias, professor da  Faculdade de Cincias Mdicas de Minas Gerais, em Belo Horizonte. O caf, na verdade, contm antioxidantes que inibem a ao dos radicais livres sobre a parede das artrias, preservando os vasos sanguneos. Os benefcios esto associados ao consumo de at quatro xcaras ao dia. Acima disso, a bebida pode deflagrar arritmia. O ovo foi alforriado mais-recentemente. Em 2007, a diretriz da Associao Americana do Corao liberou seu consumo  uma unidade por dia. O alimento, em especial a gema,  rico em nutrientes essenciais para o bom funcionamento do organismo, incluindo o corao. Dois deles so a colina, enzima importante para a formao da membrana celular, e o triptofano, o aminocido precursor da serotonina, a substncia associada  sensao de bem-estar. "Do total de gorduras contidas em um ovo, a maioria  monoinsaturada, protetora do corao", diz o cardiologista Daniel Magnoni, do Hospital do Corao, em So Paulo. 

OS EXAMES 
Elas erram na ordem de prioridades 
     O eletrocardiograma, exame que registra a atividade eltrica cardaca, no , ao contrrio do que apontam as entrevistadas na pesquisa, o rastreador nmero 1 de um iminente infarto. Tampouco o ecocardiograma  o terceiro mais citado , cuja funo  analisar a anatomia e a funo das estruturas cardacas, como vlvulas, msculos, artrias, veias e o pericrdio. "Tais exames so importantes para situaes especficas", diz o cardiologista Raul Dias dos Santos, professor da Faculdade de Medicina da USP. "No h aparelho no mundo que substitua o exame de sangue e o clnico." Louve-se, portanto, a ateno com a medida da presso arterial, em segundo lugar nas respostas femininas. Ela deve estar sempre associada  anlise das taxas de colesterol e de glicemia, alm das medidas de presso e de cintura. O preocupante  que as mulheres empurraram esses exames para colocaes na ponta final de prioridades. O Sinta Seu Corao tambm perguntou s mulheres se elas costumam se submeter ao exame de densitometria ssea, que avalia osteoporose, um mal que acomete trs a cada dez mulheres com mais de 50 anos. A resposta foi surpreendente  73% delas nunca fizeram o teste. Alm do perigo para a sade dos ossos, deixar de fazer o exame pode ser um risco ao corao. Estudos iniciais indicam que a densitometria ssea pode ajudar a identificar problemas cardacos. A relao  simples. A osteoporose se configura como a perda de absoro do clcio pelos ossos. H hipteses que afirmam que esse clcio pode se depositar nas coronrias, o que facilitaria a aterosclerose. 

O MAIOR INIMIGO FEMININO...
O grande terror feminino  o cncer de mama. A doena, no entanto, mata muito menos do que os problemas cardiovasculares 
Nmero de mulheres mortas anualmente no Brasil por infarto 39.000
Nmero de mulheres mortas anualmente no Brasil por cncer de mama 12.800

HOJE
A cada 100 bitos masculinos por infarto...
.. ocorrem 50 bitos femininos
Na dcada de 90 ocorriam 17 bitos femininos
Na dcada de 50 ocorriam 10 bitos femininos.

.. DESCONHECIDO PELAS MULHERES
 Quais so os principais fatores de risco para o corao?
Hipertenso 81%
Obesidade 80%
Sedentarismo 66%
Colesterol alto 63%
Stress 54%
Cigarro 49%
Dieta rica em gordura 49%
Diabetes 18%
Excesso de lcool 12%
Uso de drogas ilcitas 12%
Dieta rica em acar 6%
Depresso 4% - Representa um grande risco, aumentando a sntese de substncias associadas  hipertenso.
Menopausa 3% - O fator de risco mais subestimado deveria estar ao lado da hipertenso na lista das preocupaes femininas.

 Quais sintomas esto associados a problemas no corao? 
Dor no peito 89% - Essa  a dor tpica do infarto nos homens. Nas mulheres no  o sintoma mais frequente
Arritmia 88%
Formigamento no brao 87% - apenas 30% das mulheres so vtimas desse sintoma.
Cansao excessivo 74%
Falta de ar 68%
Nuseas 34%
Dor de cabea 32%
Dor na boca do estmago 30%
Dor nas costas 28%
Desconforto nas pernas 29%
Viso turva 24%

 Quais alimentos aumentam o risco cardiovascular?
Produto industrializado (enlatado, lasanha e pizza pronta, por exemplo) 91%
Refrigerante normal 81%
Doce 80%
Carne vermelha 74%
Po e massa 67%
Refrigerante diet 50%
Caf 48% - A bebida contm antioxidantes que inibem a ao dos radicais livres sobre a parede das artrias.
Ovo 37% - Ao contrrio do que se pensa, grande parte da gordura do ovo  monoinsaturada, protetora do corao. 


7#3 MODA  JAQUETINHA BSICA
Uma mostra com fotos de celebridades usando a pea icnica de Coco Chanel demonstra a preciso do princpio que orientou mademoiselle: a simplicidade do luxo. 
MARIO MENDES, DE PARIS

     No incio deste ano, em entrevista a VEJA, o estilista alemo Karl Lagerfeld, diretor criativo da Chanel, declarou com todas as letras que moda no  arte  alfinetando assim a pretenso de certos colegas de mtier que se consideram acima do mero design de roupas. Justificou a afirmao lembrando que Coco Chanel, a prpria, nunca fez uma exposio de seus modelos. Ao contrrio do que se poderia imaginar, essas opinies do "kaiser" no so contraditas por The Little Black Jacker, mostra que ser aberta em So Paulo, nesta quinta-feira, e permanece at 1 de dezembro na Oca, no Parque do Ibirapuera. No, no se trata de uma exposio de arte, mas sim da celebrao de uma pea que representa a funcionalidade de um design ao mesmo tempo verstil e atemporal: a famosa jaquetinha preta criada por mademoiselle Chanel em 1954. Em mais de 100 fotos, todas em preto e branco, a exposio torna palpvel um dos princpios fundamentais do trabalho de mademoiselle: a "simplicidade do luxo". 
     Nas fotos, modelos, astros do cinema e da msica, celebridades em geral e at duas crianas vestem a jaquetinha das mais diversas maneiras, de acordo com o estilo de cada um. Alguns exemplos: a anglo-brasileira Alice Dellal, modelo da marca e filha da socialite carioca Andrea Dellal, usa a sua sob um colete de couro tacheado, combinao que  puro punk de butique. Uma Thurman fez uma escolha mais dramtica: usou a jaqueta, como uma capa, sobre um romntico chemise transparente. O rapper Kanye West incorporou a jaqueta ao visual jeans e camiseta (a pea, alis, costumava ser eminentemente feminina, e o modelo para homens ainda  mais difcil de ser encontrado  o endereo mais seguro  a matriz parisiense da Rue Cambon). Todos os cliques so de monsieur Lagerfeld  que, apesar de h muitos anos ser o fotgrafo oficial das campanhas da grife, avisa:  Fotografo um pouco, mas no sou um artista". As variaes na aparncia e no uso da pea-tema so obra da influente editora de moda Carine Roitfeld, famosa pela direo, durante dez anos, da edio francesa da Vogue e atualmente  frente de uma revista que tem suas iniciais como ttulo, a CR. 
     "Chanel criava as roupas diretamente em cima do nosso corpo, para obedecerem aos movimentos e serem absolutamente confortveis", lembra a atriz brasileira Vera Valdez, que trabalhou como modelo na maison em Paris, nos anos 50 e 60, e praticamente viu o nascimento da jaquetinha. Outros preceitos de Chanel obedecidos pela icnica pea em tweed negro: "Mangas para erguer e cruzar os braos livremente e bolsos na altura onde as mos esperam encontr-los". O caimento perfeito  obtido graas ao peso de uma fina corrente metlica costurada acima da barra, junto ao forro. A partir dessas linhas simples, a jaqueta tornou-se um dos maiores fetiches da moda internacional  e tudo isso a partir de mdicos 10.000 reais. "Na moda, h que ser oportunista", sentenciou Lagerfeld. Muito de acordo com esse esprito, a mostra vem reforar o fetiche. "Nossa inteno  exibir para o grande pblico o melhor da marca  a criatividade, a imagem e o produto", disse a VEJA o presidente mundial de moda da empresa, Bruno Pavlovsky, que, seguindo o discreto estilo Chanel, raramente fala  imprensa. Uma das regras de ouro da casa  jamais revelar nmeros  ao contrrio de outros conglomerados do ramo, como os igualmente reluzentes LVMH e Prada. Durante a entrevista, Pavlovsky entregou apenas dados sobre a exposio: The Little Black Jacket percorrer dezesseis cidades num perodo de oito meses  So Paulo  sua penltima escala. A prxima  Singapura. "O que nos interessa compartilhar com o pblico  o sonho", diz Pavlovsky, com o sorriso cordial dos hbeis executivos. Nas ltimas temporadas de lanamentos em Paris, a editora de moda do The New York Times, Cathy Horyn, tem reclamado do gigantismo dos desfiles da Chanel, realizados no enorme salo do Grand Palais e, segundo ela, dignos de serem vistos com binculos. Pavlovskv, claro, discorda. Diz que todos os eventos de grande escala servem apenas ao objetivo de atrair o cliente para a intimidade de uma das 86 butiques espalhadas pelo mundo. The Little Black Jacket, com todo o seu elenco estelar de modelos, vem confirmar a simplicidade luxuosa das concepes de Chanel. A estrela maior  a jaqueta, confirmao da mxima de mademoiselle, exaustivamente repetida porque sempre oportuna: "As modas passam, o estilo permanece".  


7#4 EDUCAO  S BOLSA FAMLIA NO RESOLVE
JADYR PAVO JNIOR

O economista americano Richard Murnane, professor de ps-graduao em educao da Universidade Harvard,  um dos grandes nomes da "educao baseada em evidncias", que formula suas recomendaes a partir de pesquisas e resultados comprovados. Ele tem se dedicado a compreender as competncias que o mercado de trabalho exige em tempos de inovao tecnolgica acelerada. Segundo Murnane, mais do que passar ao aluno alguns contedos bsicos, a escola precisa ensin-lo a aprender  pois essa ser uma necessidade permanente em sua vida. Eis o desafio do Brasil. "Nos ltimos quinze anos, a educao do pas colheu os frutos que estavam ao alcance das mos. Daqui em diante, avanar significa vencer dificuldades muito maiores", diz. "Um desses frutos foi a incluso escolar ensejada pelo programa Bolsa Famlia. Mas esse tipo de mecanismo no proporciona aos estudantes conquistas mais elevadas." Murnane ser palestrante do seminrio internacional Educao Baseada em Evidncias, que o Instituto Alfa e Beto realiza em So Paulo e Recife entre os dias 28 e 31. Na entrevista a seguir, ele aponta quais males o Brasil deve atacar e explica os limites de aes apresentadas como "mgicas. 

O Brasil est entre as sete maiores economias do mundo, mas nossos indicadores educacionais colocam o pas nas ltimas posies dos rankings internacionais.  possvel crescer de forma sustentvel com esse passivo? 
Pensando nos prximos cinquenta anos, o progresso econmico do pas ser cada vez mais dependente da sua capacidade de oferecer um ensino de qualidade s crianas. Nos ltimos quinze anos, o Brasil obteve resultados expressivos em educao.  o caso do aumento da parcela de estudantes que concluem o ensino fundamental e o ciclo mdio e tambm do desempenho do pas em avaliaes internacionais, que subiu. Contudo, outros desafios permanecem onde estavam. Nesses quinze anos, o Brasil colheu os frutos que estavam ao alcance da mo, ou seja, as polticas educacionais propiciaram melhorias bsicas. Daqui em diante, avanar significa vencer desafios diferentes, dificuldades muito maiores, como aprimorar o trabalho de professores. 

O senhor analisou os efeitos de programas similares ao Bolsa Famlia na vida escolar de crianas em outros pases em desenvolvimento, como Mxico, Equador, Marrocos e Paquisto. Qual  sua concluso? 
O Bolsa Famlia segue o modelo de pagamentos a famlias de baixa renda condicionados  permanncia de seus filhos na escola.  uma ideia interessante. As evidncias so claras: o mecanismo conduz  incluso e permanncia das crianas na escola, mas no a conquistas mais elevadas por parte dos estudantes. A razo disso  conhecida: as escolas que essas crianas frequentam no so boas. O desafio, ento,  aprimorar a escola e, assim, a educao. 

Como aprimorar a educao? 
H quatro passos. O primeiro passo foi dado no Brasil: levar as crianas para a sala de aula. O segundo  levar o professor regularmente  escola, evitar que ele falte e faz-lo dar o melhor de si. O terceiro  melhorar a qualidade do ensino, o que significa investir no professor. O quarto  o passo mais difcil de atingir: estabelecer um modelo de escola em que os professores trabalhem juntos para acompanhar o desenvolvimento de cada criana e intervir rapidamente quando uma delas no adquire as competncias fundamentais. Isso requer a garantia de que o trabalho de cada professor ser observado por seus pares para a formao de uma fonte pblica de conhecimento. Isso significa enxergar a escola como uma organizao social, na qual professores trabalham juntos para servir bem a todos os estudantes. Pases que tm excelentes sistemas de ensino, como Finlndia e Singapura, fazem isso. Eles foram alm do foco no professor e construram o que chamo de comunidades de aprendizado. 

Como isso acontece na prtica? 
Pense em uma criana de uma famlia pobre cujos pais no receberam uma boa formao educacional e, por isso, no esto aptos a ajudar seu filho nas tarefas escolares. No 4 ano do ensino fundamental, essa criana tem de aprender fraes. Para ensinar essa matria, seu professor desenvolveu uma estratgia mais ou menos bem-sucedida, e a criana comea a aprender. No ano seguinte, porm, essa mesma criana retorna  aula, mas tem um novo professor, que apresenta uma estratgia diferente para tratar do mesmo contedo. Imagine quo confusa fica a criana.  por isso que nas escolas onde o ensino  realmente efetivo os professores no trabalham isoladamente: assim, docentes podem transmitir conhecimentos da mesma forma. 

Oferecer inventivos a professores, incluindo o financeiro, de fato funciona? 
Em alguns pases pobres,  difcil fazer com que o professor comparea diariamente  aula. Vrias pesquisas mostram que incentivos podem exercer um papel importante para que docentes realizem atividades bsicas, como comparecer diariamente  escola e trabalhar duro. Contudo, o passo seguinte, o terceiro,  mais difcil: elevar a qualidade da educao. Apenas oferecer incentivos aos professores no  produtivo. Se voc der s pessoas um incentivo para que elas faam algo que no sabem fazer, no atingir os resultados esperados. Voc precisa ajudar os professores a aprimorar seus conhecimentos a ponto de que eles aprendam a ensinar melhor. 

Vrias iniciativas tm sido apresentadas como soluo para todos os problemas da educao.  o caso do aumento de verbas para o setor, do uso de tablets e da ampliao da jornada escolar. Qual o potencial e quais os limites de tais aes? 
Se voc quer oferecer educao de mais qualidade s crianas, precisa de intervenes que efetivamente provoquem mudanas na experincia diria delas. Ento, antes de adotar qualquer medida, voc deve perguntar: essa poltica vai resultar em mudanas fundamentais na rotina dos estudantes? Na questo especfica de colocar mais recursos no setor, o ponto-chave : no se deve comear uma poltica educacional pelo dinheiro. Se voc quer aprimorar o ensino, o que precisa fazer  conceber uma experincia de aprendizagem mais efetiva, desenhada para ajudar as crianas a desenvolver habilidades crticas. Ento, voc investiga o que  necessrio para fazer isso acontecer, como pr esse projeto de p, quanto isso vai custar. O dinheiro deve vir depois do processo, e no antes dele. Mas a poltica no funciona assim na maior parte do tempo. 

O senhor faz a mesma avaliao de outras aes apresentadas como balas de prata da educao? 
Sim. Vamos analisar outra ideia amplamente difundida: a reduo das turmas, ou seja, classes com menos alunos.  uma ideia de que pais e professores gostam. Bem, ela cria oportunidades para mudar a experincia de aprendizado, mas isso normalmente no ocorre. Se o professor continua ensinando da forma como sempre fez  que tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos significa falar enquanto a turma escuta , no importa se h 32 ou dezoito alunos na classe: a experincia no vai resultar em mais aprendizado. J nas poucas e  excepcionais escolas em que se reconhecem oportunidades nas turmas com menos alunos, cria-se espao para um tipo diferente de pedagogia. Ento, as crianas podem, por exemplo, trabalhar juntas para solucionar problemas, escrever muito mais e receber feedback dirio dos professores. 

Em um estudo recente sobre o mercado americano, o senhor afirma que no futuro os profissionais que quiserem as melhores oportunidades devero se concentrar em trs tipos de trabalho. Quais sero eles? 
Se voc quer saber em que reas haver emprego no futuro, precisa perguntar que tipos de tarefa dificilmente podem ser realizados por computador. O primeiro  resolver novos problemas. Os computadores tm de ser ensinados a realizar tarefas novas. O segundo  interpretar informaes. Muitos problemas s podem ser resolvidos quando voc rene pessoas de vrias reas. Isso exige interao, comunicao, reflexo e tomada de deciso.  algo que pessoas que tiveram uma boa formao podem fazer melhor do que computadores. A terceira rea refratria  substituio do homem pela mquina  uma parcela do setor de servios que inclui, por exemplo, cuidados com crianas e idosos, preparao de alimentos e atendimento ao pblico. H uma diferena: as duas primeiras exigem mais competncias e, por isso, pagam salrios mais altos. A terceira, embora proporcione muitas oportunidades em pases em que a economia se expande, oferece remunerao mais modesta. 

Como preparar as crianas para o futuro que o senhor prev? 
As habilidades tradicionais continuaro sendo relevantes, especialmente ler e escrever muito bem e dominar operaes matemticas. A diferena  que competncias como ler e escrever bem e fazer clculos corretamente assumem agora um sentido diferente. Quando muitos empregos exigiam apenas que segussemos instrues, tudo o que precisvamos fazer era seguir as regras. Hoje, o desafio  ler bem o bastante para continuar a aprender de forma eficiente. Na velocidade em que a tecnologia avana, pouqussimas pessoas tero uma vida segura fazendo pelos prximos trinta anos a atividade que realizam hoje. Da a importncia de aprender a aprender. Pensemos num problema corriqueiro atual. Quando voc usa a internet para fazer uma busca, parte do desafio  estar apto a discernir o pequeno grupo de respostas que de fato  til para solucionar o problema que voc tem. Portanto, o sentido do que  ser uma pessoa letrada mudou. O mesmo serve para a matemtica. Realizar clculos no  mais um problema. A maneira como voc formula o novo problema, como o expressa matematicamente,  o que importa.
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8# GUIA 30.10.13

     8#1 MAIS DIREITOS AO PACIENTE
     8#2 SADE FORA DA EMPRESA
     8#3 BEB DE CARTEIRINHA
	8#4 SORRISO AMARELO

8#1 MAIS DIREITOS AO PACIENTE
NA SEMANA PASSADA, A AGNCIA NACIONAL DE SADE SUPLEMENTAR (ANS), RGO QUE REGULA O SETOR DE PLANOS DE SADE, ANUNCIOU O NOVO ROL DE PROCEDIMENTOS QUE DEVERO TER COBERTURA OBRIGATRIA A PARTIR DE JANEIRO DE 2014. 

A medida prev a incluso de 37 medicamentos para o tratamento de cncer, alm de cinquenta novos exames, consultas e cirurgias. Existem, hoje, 42 milhes de usurios de planos de sade que sero beneficiados  ficam de fora os que contrataram o servio antes de 1999, quando a ANS passou a regul-lo. No momento, 246 planos de 26 operadoras esto com a comercializao suspensa, seja por descumprir os prazos de atendimento (trs dias para exames, sete para consultas e 21 para cirurgias), seja por negar algum tipo de cobertura compulsria. A multa para as operadoras que descumprirem as regras  de 80.000 reais. A seguir, especialistas comentam os principais procedimentos previstos no novo rol.

TRATAMENTO ONCOLGICO EM CASA
A partir do ano que vem, os planos de sade sero obrigados a fornecer 37 medicamentos de uso oral para o tratamento domiciliar de vrios tipos de cncer, entre eles tumores de mama, prstata, fgado e intestino. Na lista h desde medicamentos como o metotrexato, que na verso genrica custa pouco mais de 30 reais, at remdios como o acetato de abiraterona, cujo valor pode ultrapassares 10.000 reais 
A medida agradou aos especialistas? Sim. "Obrigar os planos a custear esses medicamentos no s amplia o arsenal teraputico na oncologia como oferece mais comodidade aos pacientes, que sem isso dependeriam s de medicao intravenosa", diz o mdico Marcello Fanelli, diretor de oncologia clnica do Hospital A.C. Camargo, em So Paulo 

TRANSTORNOS PSICOLGICOS 
Hoje, a ANS j prev doze sesses anuais com psicoterapeutas para o tratamento de distrbios psicolgicos graves, como episdios de depresso, com prescrio mdica. O novo rol engordou a lista de doenas contempladas. A partir de janeiro, ganharo direito a doze consultas por ano tambm os portadores de transtornos de personalidade e transtornos de humor 
A medida agradou aos especialistas? No, pois, embora a nova norma tenha ampliado a lista de doenas que merecem cobertura, no aumentou a quantidade de sesses. "Nenhuma patologia, mesmo que moderada, pode ser tratada com apenas doze sesses anuais. Os pacientes deveriam ter direito a no mnimo 48 sesses por ano  ou quatro por ms", diz a psicloga Roseli Goffman, representante do Conselho Federal de Psicologia nos debates que resultaram no novo rol da ANS 

FISIOTERAPIA
Atualmente, a lista de procedimentos obrigatrios j prev sesses de fisioterapia mediante prescrio mdica, mas no prev consulta prvia com o fisioterapeuta, que a partir de agora passa a ser coberta pelos planos 
A medida agradou aos especialistas? Sim. "A consulta garante um atendimento individualizado, que auxilia no diagnstico, prognstico e tratamento mais indicado em cada caso", diz Denise Flvio de Carvalho Lima, presidente da Associao de Fisioterapeutas do Brasil. Mas, para o paciente, pouco muda na prtica, pois a consulta j costumava acontecer  sem que o profissional fosse remunerado por ela 

VIDEOCIRURGIA 
Hoje, um grupo seleto de planos de sade oferece cobertura a alguns tipos de cirurgia que utilizam microcmera  mtodo que permite intervenes bem menos invasivas do que as tradicionais. A partir de janeiro, 28 videocirurgias sero, obrigatoriamente, cobertas por todas as operadoras. Entre elas a histerectomia (extrao do tero) e procedimentos para a retirada de clculos na vescula e de cistos hepticos 
A medida agradou aos especialistas? Sim. "As videocirurgias reduzem o trauma fsico e o tempo de internao dos pacientes e, para os mdicos, garantem maior preciso cirrgica. Foi uma vitria muito importante", diz o ginecologista Cludio Crispi, presidente da Sociedade Brasileira de Videocirurgia  

AMPLIAO DO PET-SCAN 
Includo h dois anos no rol de procedimentos da ANS, o PET-Scan, ou PET-CT, como  chamado um dos exames mais precisos  e caros  para avaliar a extenso de um tumor, poder ser indicado, a partir de 2014, em oito circunstncias. Hoje, so apenas trs. Dessa forma, alm de pacientes diagnosticados com linfoma, cncer colorretal e um tipo especfico de tumor pulmonar, podero fazer o exame aqueles que forem diagnosticados com ndulo pulmonar solitrio, melanoma e canceres de mama, cabea e pescoo e esfago 
A medida agradou aos especialistas? Em parte. "Trs em cada dez metstases de cncer de esfago no so identificadas pela tomografia comum. A incluso do PET-Scan para casos desse tipo foi muito importante", diz Fanelli. Mas a Sociedade Brasileira de Oncologia Clnica acredita que a medida deveria ser mais ampla, incluindo certos casos de cncer de tireide e de colo de tero, que j so comumente diagnosticados com PET-Scan em outros pases 

DETECO DE DOENAS NA RETINA 
A tomografia de coerncia ptica  exame usado para avaliar desde as camadas internas e transparentes do olho at a retina  j era coberta pelos planos de sade para casos como degenerao macular relacionada  idade e tumores oculares. A partir de janeiro, ela passa a valer para o diagnstico e o acompanhamento de edemas maculares, como o que costuma acometer diabticos 
A medida agradou aos especialistas? Sim. O exame j  rotina em vrios outros pases. "No caso de diabticos, essa avaliao  mais importante ainda, pois, se a doena no for tratada a tempo, pode levar  perda completa da viso", diz o mdico Aderbal Alves Jnior, membro do conselho consultivo da Sociedade Brasileira de Oftalmologia 

DOR CRNICA NAS COSTAS 
O novo rol de procedimentos inclui a cobertura  radiofrequncia para dores crnicas nas costas. A chamada "rizotomia percutnea por radiofrequncia" promove a queima da raiz de nervos em locais onde leses ou tumores inoperveis provocam dor na coluna vertebral 
A medida agradou aos especialistas? Sim. "A radiofrequncia vai beneficiar principalmente pacientes oncolgicos, que j no respondem ao tratamento medicamentoso para a dor", diz o neurologista Pedro Schestatsky, coordenador do departamento cientfico de dor da Academia Brasileira de Neurologia 


8#2 SADE FORA DA EMPRESA
O funcionrio que se aposenta ou  demitido sem justa causa no fica desamparado. Quando se desliga da empresa, pode permanecer como beneficirio do plano de sade coletivo oferecido pela companhia para a qual trabalhava, mantendo, inclusive, o padro de atendimento anterior. Para isso, ele precisa assumir integralmente a mensalidade paga  operadora. "A lei garante esse direito, mas h casos em que o consumidor no  informado pelo empregador sobre a possibilidade de manter o plano", diz Selma do Amaral, diretora de atendimento do Procon-SP. A seguir, as atuais regras da Agncia Nacional de Sade (ANS) sobre o assunto, que valem desde junho de 2012. 
Aposentadoria: ao se aposentar, o funcionrio que contribuiu por mais de dez anos com o pagamento do plano de sade pode manter o benefcio pelo tempo que desejar. Quando o tempo  inferior, cada ano de contribuio d direito a um ano no plano coletivo aps a aposentadoria. Durante o perodo de cobertura, o aposentado tem a opo de migrar para outro plano sem ter de cumprir novas carncias 
Demisso: para os funcionrios demitidos sem justa causa, a ANS determina que o ex-funcionrio pode permanecer no plano de sade da empresa pelo perodo de um tero do tempo de servio, sendo o limite mnimo de seis meses e o mximo de dois anos. Mas, para ter esse direito, ele precisa ter contribudo com parte da mensalidade do plano enquanto trabalhava. A regra para a portabilidade  a mesma que vale para os aposentados: no h exigncia de novas carncias se houver migrao 


8#3 BEB DE CARTEIRINHA
Ao longo do primeiro ms de vida, o beb tem direito a assistncia mdica, seja qual for o plano de seus pais. Continuar nele sem cumprir prazo de carncia  possvel, desde que o pai ou a me tenham um plano obsttrico 
Prazo: os pais tm at trinta dias a partir do nascimento, do incio da guarda ou da adoo da criana para pedir a incluso dela como dependente. Passado esse perodo, o pequeno associado ter de cumprir os perodos de carncia previstos por lei. 


8#4 SORRISO AMARELO
O novo rol de procedimentos da Agncia Nacional de Sade Suplementar tambm contempla os quase 19 milhes de brasileiros que possuem planos exclusivamente odontolgicos. Nesse caso, passam a ter cobertura obrigatria enxertos de gengiva, cirurgias gengivais para facilitar a higienizao bucal e um teste que identifica a acidez da saliva para avaliar o risco de crie. Esse ltimo, segundo os dentistas, fica mais completo quando  feito junto com o exame de fluxo salivar  no coberto pelos planos. " inadmissvel que a sade bucal seja separada da sade como um todo. O implante dentrio, por exemplo, no tem cobertura obrigatria", critica o cirurgio-dentista Rodrigo Bueno, consultor da Associao Brasileira de Odontologia. 
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9# ARTES E ESPETCULOS 30.10.13

     9#1 FOTOGRAFIA  RADICAL CHIQUE
	9#2 TELEVISO  CRISE DE IDENTIDADE
	9#3 TELEVISO  F NA PORRADA
	9#4 LIVROS  O TROVO DA RAZO
	9#5 CINEMA  A COR DA DEMAGOGIA
	9#6 VEJA RECOMENDA
	9#7 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
	9#8 J.R. GUZZO  CR OU MORRE

9#1 FOTOGRAFIA  RADICAL CHIQUE
Uma exposio que chega ao Brasil em 2014 vai das origens dadastas s experincias de laboratrio de Erwin Blumenfeld, o artista alemo que trouxe a vanguarda  fotografia publicitria e de moda.
MRIO MENDES, DE PARIS

     Voc pode no saber exatamente quem foi Erwin Blumenfeld, mas com certeza j viu pelo menos uma das muitas centenas de fotos que ele produziu entre os anos 30 e 60. Como a que ilustra a pgina ao lado, um dos cartes-postais mais famosos de Paris: feita em 1939, durante as comemoraes do cinquentenrio da Torre Eiffel, mostra a modelo sueca Lisa Fonssagrives praticamente pendurada no alto do clebre monumento. "Ela era uma ginasta e ele um alpinista. Ambos eram jovens e gostavam de desafios arriscados", disse a VEJA Nadia Blumenfeld Charbit, mdica e cientista que est entre os guardies do precioso arquivo iconogrfico deixado pelo av, considerado um dos maiores fotgrafos do sculo XX. Apesar de ter feito fama e fortuna sobretudo por suas fotos de moda e publicidade, o alemo Blumenfeld tambm enveredou pelas artes plsticas. Suas imagens em preto e branco rivalizam em qualidade e beleza com as do muito mais festejado fotgrafo americano Man Ray  de quem Blumenfeld foi contemporneo, mas no exatamente amigo. A versatilidade de estilos, a ousadia visual, a atualidade do enfoque e sua influncia na fotografia que se produz hoje (como se ver nas imagens da prxima pgina) surpreendem o visitante da mostra Erwin Blumenfeld, em cartaz no museu parisiense Jeu de Paume at 26 de janeiro de 2014. So mais de 300 obras  entre fotos, desenhos, colagens e fotomontagens  que acompanham a trajetria do fotgrafo desde seu engajamento no movimento dadasta, em Amsterd, no fim da I Guerra Mundial, at sua morte repentina, fulminado por um ataque cardaco em 1969, aos 72 anos, durante uma viagem de frias em Roma. 
     "Ele queria mesmo era ser um grande pintor, mas, depois de fazer algumas telas a leo, hoje perdidas, concluiu que a fotografia seria uma carreira mais slida", conta Nadia. As pessoas que Blumenfeld retratava com sua cmera na capital holandesa no estavam muito dispostas a pagar por seus servios, e a pequena loja de artigos de couro que ele mantinha como sustento faliu. A sada foi se mudar, em 1936, para Paris, a cidade que recebia de braos abertos qualquer um com pretenses artsticas. Mas mesmo l a situao no era diferente para um fotgrafo retratista: clientes de mais e dinheiro de menos. At que Blumenfeld conheceu Cecil Beaton, clebre fotgrafo ingls que trabalhava para a Vogue. Impressionado com a qualidade tcnica do colega  at o fim da vida, Blumenfeld fez questo de revelar ele mesmo todas as suas imagens em preto e branco, obtendo resultados inusitados , Beaton o apresentou para a direo de arte da revista. 
     Era o incio de um perodo  que se estendeu at os anos 50  no qual a fotografia de moda conheceu sua fase mais criativa. Disciplinado e profcuo, Blumenfeld incorporou a uma atividade francamente comercial no s elementos de sua experincia artstica, mas tambm experimentaes com luz, sombra, cor e superposio de imagens, tudo para retratar seu objeto favorito: o corpo feminino. Fazia questo de controle absoluto no estdio: ''Ele ajustava a luz, desenhava o cenrio, escolhia as roupas e at maquiava as modelos", relata sua neta. 
     Depois de passar por cinco campos de prisioneiros, no incio da II Guerra Mundial, ele conseguiu reunir a famlia e se mudar para Nova York, onde, a partir de 1941, trabalhou para as revistas Harper's Bazaar, Vogue, Life e Cosmopolitan. alm de fazer carreira na publicidade. Nunca abandonou o trabalho autoral  como os nus femininos e os autorretratos  e, nos ltimos dez anos de vida, dedicou-se a uma autobiografia que encarava como uma experincia literria legtima  publicado originalmente em 1975, o livro ganhar reedio neste ano na Franca. 
     Erwin Blumenfeld, a exposio, atualmente em Paris, j passou por Japo, Alemanha e Inglaterra. No segundo semestre de 2014, desembarca no Museu Faap, em So Paulo. "Com suas colagens, retratos, editoriais de moda e fotos de publicidade, Blumenfeld colocou os elementos dadastas no mainstream e influenciou fotgrafos como Irving Penn, Richard Avedon e Guy Bourdin", explica o curador Danniel Rangel. Detalhe irnico: durante sua longa carreira, Blumenfeld manteve relaes tempestuosas tanto com diretores de arte como com curadores. A atual redescoberta de sua obra, portanto, soa como aquela agradvel gargalhada final. 

VERTIGEM NO CARTO-POSTAL
Lisa Fonssagrives na Torre Eiffel, instantneo de 1939 realizado durante as comemoraes do cinquentenrio da atrao turstica, tornou-se um dos mais conhecidos cartes-postais de Paris. A modelo, que tambm era ginasta, s topou ficar  beira do abismo ao ver Erwin Blumenfeld, alpinista nas horas vagas, pendurado na gigantesca armao metlica para retrat-la. Acima, o fotgrafo em um de seus muitos autorretratos.

JOGO DE LUZ, SOMBRA E COR
Faa Sua Parte pela Cruz Vermelha era uma ao do esforo de guerra e foi capa da Vogue americana em maro de 1945. O jato de tinta vermelha foi adicionado sobre a foto j revelada. Uma influncia mais que evidente para a imagem de moda do fotgrafo ingls Nick Knight, de 1986. As experimentaes de Blumenfeld com superposies, transparncias e solarizaes eram realizadas no laboratrio, durante a revelao, e continuam a inspirar sucessivas geraes de profissionais da imagem.

EROTISMO SURREAL
Helmut Newton utilizou a leveza de um leno de papel grudado no batom para ressaltar os lbios voluptuosos da atriz italiana Monica Bellucci, fotografada por ele no incio dos anos 2000. Em um de seus trabalhos influenciados pelo surrealismo, Nu sob Vu Molhado, de 1937, Blumenfeld j recorrera ao mesmo expediente. A boca e os seios da modelo annima sobressaem, enquanto o contorno do corpo parece se desfazer numa atmosfera de difana sensualidade. 

AMAZONA DESCONSTRUIDA
Blumenfeld chamou de A Garota de Picasso esta variao de um trabalho publicado na revista Life entre 1941 e 1942. O efeito caleidoscpico do vidro sobre a forma humana seria usado inmeras vezes para embaralhar as cores e sugerir movimento. A dupla de fotgrafos Mert & Marcus desconstruiu de forma semelhante a imagem de Madonna  essa insistente apropriadora de elementos da cultura pop de outras eras  para a capa de seu mais recente lbum.


9#2 TELEVISO  CRISE DE IDENTIDADE
Em The Americans, dois espies soviticos vivem como um casal infiltrado nos Estados Unidos  mas tm suas convices abaladas pela liberdade do pas inimigo.
MARCELO MARTHE

     Horas aps o atentado que quase causou a morte do presidente Ronald Reagan, em 1981, uma briga de casal se desenrola num subrbio de Washington. A dona de casa Elizabeth (Keri Russell) saca da gravao de um dilogo entre autoridades americanas para aventar uma tese maluca: a tentativa de assassinato seria parte de um golpe militar engendrado para precipitar a guerra atmica entre os Estados Unidos e a Unio Sovitica. Seu marido no embarca na paranoia  sensatamente, pois logo se esclareceria que o sujeito que atirou em Reagan era s um doido desejoso de chamar a ateno da atriz Jodie Foster. "Faz tantos anos que voc vive aqui e ainda no compreende nada sobre este pas", diz ele. Quando Elizabeth insinua que Phillip (Matthew Rhys) est sendo ingnuo, o marido lana um argumento irrefutvel: quem tem o hbito de agir completamente  sombra do escrutnio pblico no so os dirigentes dali, mas os ditadores soviticos. Phillip sabe do que fala. Ele e a mulher so espies da KGB. Treinados desde a juventude para se infiltrar na sociedade inimiga, foram obrigados a abraar o modo de vida americano. Tm at filhos, como o mais corriqueiro dos casais. No ponto em que se inicia a srie The Americans, quase vinte anos depois da chegada da dupla ao pas, os limites entre farsa e realidade se mostram cinzentos. A unio de convenincia confunde-se com amor legtimo. Os dois espies concordam que, afinal, constituram uma famlia legtima. Mas, quela altura, h tambm uma barreira to concreta quanto o Muro de Berlim interpondo-se entre eles: cresce no marido o desejo de desertar, enquanto a mulher se mantm fiel  programao ideolgica comunista. O choque de vises de mundo se exacerba com o raiar dos anos 80, quando os militares e mandatrios soviticos retratados na srie assistem, confusos,  ascenso de um presidente americano que consideram "louco"  mas que vai arrancar os Estados Unidos da recesso. Na etapa derradeira da Guerra Fria, a coisa no era to fria assim nos bastidores: no campo da espionagem, a tenso atingia uma temperatura crtica. A srie capta essa atmosfera com maestria. Pena que ser maltratada na TV paga brasileira: o canal FX vai exibi-la a partir do domingo 27, sempre s 10 da manh. Sem direito a reprise  e em verso dublada. 
     The Americans tira inspirao da realidade.  clebre o caso de Rudolf Abel, agente sovitico que viveu como cidado americano por anos e s foi desmascarado graas ao achado fortuito de uma moeda de dlar falsa que continha uma mensagem em cdigo, em 1957. Em 2010, duas dcadas depois do fim da Guerra Fria, novos espies russos que levavam vida dupla foram descobertos. O perodo em que se passa a srie  uma escolha de ouro de seu criador, Joseph Weisberg. Na virada dos anos 80, uma brisa de mudana j soprava no mundo polarizado, mas de forma to tnue que no se podia adivinhar seu impacto futuro. O ex-ator canastro Reagan usou do senso comum para conduzir a economia e a poltica internacional. Indo contra o estilo frouxo do antecessor, Jimmy Carter, Reagan tratou a Unio Sovitica como aquilo que era  o "Imprio do Mal". Acelerando a corrida armamentista, anunciou o projeto de um escudo espacial antimsseis que causou pnico nos soviticos. Embora o projeto Guerra nas Estrelas no tenha sado do papel, a movimentao foi suficiente para arruinar a combalida economia comunista. 
     Para fornecer um retrato acurado da era Reagan (veja o quadro), a srie se vale de uma tendncia das produes americanas: no lugar da recriao monoltica dos anos 80, os itens do perodo se mesclam a camadas de moda e cultura das dcadas anteriores, resultando em salutar realismo visual. Mas o que distancia The Americans da frugalidade dos thrillers de espionagem  seu componente humano. O espectador  tentado a torcer pelo casal da KGB, ainda que a trama frise quanto  indefensvel a causa pela qual eles mentem, matam e seduzem fontes de informao em potencial. A discordncia entre Phillip e Elizabeth proporciona farto material ao exame da conscincia deles. H, ainda, outro fator de desconforto. "Apesar de tudo, o amor pelos filhos os torna simpticos", disse Matthew Rhys a VEJA. The Americans , pois, uma serie sobre a desconstruo das identidades. E a fora existencial que move tal processo  uma s: a exposio dos protagonistas a um novo e irresistvel fator ambiental  a liberdade. 

A ERA REAGAN
As drsticas mudanas dos Estados Unidos  e do mundo  na dcada de 80, cujo incio  retratado em The Americans

ECONOMIA
Para espantar a recesso e recuperar o astral dos americanos, o presidente Ronald Reagan investiu no liberalismo e num choque de autoestima. Baseada em medidas como corte de impostos e de gastos, a doutrina do "Reaganomics" resultou em um perodo de prosperidade

POLTICA INTERNACIONAL
Reagan deu o lance final  vitorioso  na Guerra Fria. A aposta num programa de defesa de alta tecnologia, o Guerra nas Estrelas, acelerou a corrida armamentista e precipitou a Unio Sovitica no colapso econmico

CULTURA
Foi o tempo das mquinas de fliperama e de musicais grudentos como Flashdance, de 1983. No pop, a Madonna meio breguinha do incio de carreira pedia passagem, e Michael Jackson inaugurava o reinado dos videoclipes com Thriller

MODA
Aos poucos, as calas boca de sino e as golas cacharel, tpicas da dcada anterior, foram dando lugar s cores berrantes, s ombreiras e aos cabeles armados com auxlio de permanente dos anos 1980. Os noveles Dallas e Dinastia espelhavam o novo sonho de riqueza dos americanos  e ditavam o visual da nao.


9#3 TELEVISO  F NA PORRADA
A minissrie A Bblia, exibida pela Record, traduz as histrias do Velho e do Novo Testamento para quem vive em uma dieta de videogames e filmes de ao.

     Em boa parte da minissrie, a religio est para A Bblia (The Bible: Estados Unidos e Inglaterra, 2013) como a histria est para o videogame Assassin's Creed:  s um pretexto para a sangria desatada. Se o livro sagrado j  prdigo no relato de guerras e assassinatos, a srie, com muita liberdade narrativa, enfatiza e estiliza a violncia. No episdio da destruio de Sodoma e Gomorra, os anjos que resgatam Lot da primeira cidade estraalham uma multido furiosa com golpes de artes marciais. O jovem Moiss trava uma luta de espada com o fara, que sai da refrega com um talho no rosto. E nem o Gnesis fala de anjos com faixa preta em jiu-jtsu, nem o xodo apresenta Moiss como um pirata do deserto. No Novo Testamento, h menos margem para ao. Mas a crucificao de Jesus (o ator portugus Diogo Morgado) parece criada pelo fotgrafo publicitrio Oliviero Toscani, clebre pelas campanhas "chocantes" da Benetton. Exibida no Brasil pela Record  emissora que produz suas prprias (e canhestras) verses bblicas, como Jos do Egito , essa leitura rejuvenescida da Bblia conquistou a audincia americana: a estreia foi vista por 13,1 milhes de pessoas; o captulo final, por 11,7 milhes. 
     A Bblia  uma criao do produtor Mark Burnett, do reality show Survivor, e de sua mulher, a atriz Roma Downey, que por nove anos estrelou um seriado carola, O Toque de um Anjo. A produtora, alis, cavou um papel de destaque: Maria, me de Jesus. Alguns episdios do Velho Testamento passam pela tela com a edio ligeira de um videoclipe: toda a histria de Ado e Eva dura menos de um minuto. Personagens fundamentais, como Jos e Salomo, foram suprimidos. 
     No haveria hoje como tratar a Bblia com a solenidade kitsch dos picos de Cecil B. DeMille. A srie est mais prxima dos padres de ultraviolncia visceral estabelecidos por Mel Gibson em A Paixo de Cristo. Em alguns casos, porm, o tom realista encontra seu equilbrio: quando Moiss atravessa o Mar Vermelho com o povo judeu, o cho est enlameado, e s esse detalhe torna a cena mais autntica e humana do que sua representao em Os Dez Mandamentos, clssico dirigido por DeMille. Cristos mais preciosistas criticaram as imprecises e liberdades da srie. Mas ela parece ter resumido com eficincia o grande arco narrativo da Bblia de um modo atraente para as geraes que se criaram em um regime de videogames e filmes de ao. A Bblia, alis, reanimou o formato da minissrie, que andava em baixa na TV americana. J se fala at em uma continuao, sobre os atos dos apstolos.  de esperar que Pedro e Paulo tenham bceps definido e barriga de tanquinho. 
SRGIO MARTINS


9#4 LIVROS  O TROVO DA RAZO
O economista Rodrigo Constantino, colunista de VEJA.com, diz coisas to espetacularmente corretas que nem precisava gritar.

     O livro Esquerda Caviar (Editora Record: 434 pginas; 42 reais), de Rodrigo Constantino,  uma obra que, pela escolha do ttulo, parece meio fora do tempo. No . Ao contrrio,  atualssima. A expresso "gauche caviar" se popularizou na Frana nos anos 80 como a definio genrica e debochada dos inmeros e influentes burgueses no governo do socialista Franois Mitterrand. No Brasil, esse tipo de gente foi chamado de esquerda festiva. A revoluo acabava na ltima rodada de chope. Nos Estados Unidos, eles foram retratados de maneira definitiva pelo escritor e jornalista Tom Wolfe  criador do termo radical chique. O livro de Wolfe de mesmo nome abre com a cena hilria do jantar exclusivrrimo oferecido a rudes militantes do grupo Panteras Negras pelo maestro Leonard Bernstein em seu dplex da Park Avenue, em Nova York. 
     Rodrigo Constantino mostra que esse tipo de hipocrisia sobrevive em todo seu esplendor no Brasil e no mundo atuais. Ele investe contra os habitantes desse universo em que o radicalismo, sincero ou no,  apenas uma maneira de obter privilgios da sociedade e, principalmente, do Estado. So seres tpicos, com tantos traos em comum que  fcil distingui-los. So politicamente corretssimos, invariavelmente antiamericanos e odeiam Israel. Para se manterem fiis a esse credo, que lhes concede tanto prestgio, passam por cima dos princpios humanitrios bsicos e desprezam a lgica. Para no se distanciar do caviar, o tipo de esquerdista descrito por Constantino apressa-se em conseguir argumentos a favor de terroristas sempre que o alvo deles so os Estados Unidos. No importa que o criminoso tenha dilacerado centenas de inocentes com suas bombas. Pela causa de Cuba, cuja ditadura culpa falsamente o embargo comercial imposto pelos Estados Unidos pelo fracasso retumbante do regime, o esquerdista, lembra Constantino, se v espremido em um labirinto contraditrio sem sada. Escreve ele: "Ora falam que o livre-comrcio  o veculo de explorao ianque, ora acusam o embargo, que nada mais  do que a proibio de empresas americanas realizarem negcios com a ilha-presdio". Mas quem est preocupado em ser coerente quando o negcio se resume a repetir palavras de ordem contra o capitalismo? Constantino se exaspera com a desonestidade intelectual desse pessoal, mas no a ponto de se valer dela para neutralizar os adversrios com a mesma arma. Ele, porm, toma de emprstimo do outro lado o hbito de expor argumentos aos brados, usando os recursos de nfase excessiva da linguagem escrita  termos ofensivos e metforas fortes. No precisava. Constantino est com a razo. 


9#5 CINEMA  A COR DA DEMAGOGIA
A despeito de suas pretenses de afirmao racial, O Mordomo da Casa Branca  uma pea de propaganda do governo Obama disfarada sob um melodrama paternalista.
ISABELA BOSCOV

     Que O Mordomo da Casa Branca (Lee Daniels' The Butler, Estados Unidos, 2013), que estreia no pas nesta sexta-feira, tenha recebido tanta ovao entre os americanos  demonstrao muito menos das qualidades do filme  poucas e ralas  que do paternalismo e da equivocao com que Hollywood trata de questes raciais. O Mordomo se destaca porque conta uma histria de afirmao de negros do ponto de vista de negros e com atores negros; no , como a maioria da produo sobre o tema, uma histria do despertar da conscincia dos brancos, ou dos esforos de alguns destes para demolir as barreiras da discriminao. Numa cultura como a brasileira, em que o racismo foi sempre perito em se escamotear para persistir  e na qual, portanto, no se produziu nenhuma ruptura como o movimento americano pelos direitos civis dos anos 1950 e 1960 , talvez seja difcil compreender o significado que uma iniciativa como esta pode adquirir. Por outro lado, fica mais fcil ver O Mordomo pelo que o filme : um melodrama muitas vezes amadorstico, quase sempre sem noo de registro e, o tempo todo, populista e redutivo. Cecil Gaines, o personagem-ttulo interpretado com circunspeco por Forest Whitaker, serve um ch ao presidente Eisenhower e este se convence a apoiar a integrao racial no Sul. Lana um olhar sbio para Kennedy e este compreende toda a extenso do sofrimento a que os negros americanos so submetidos. Entrega uma toalhinha a Lyndon Johnson e logo este assina uma pea legislativa crucial para a igualdade de direitos. Cineastas negros, como se v, tambm so capazes de condescender e equivocar. 
     Cecil Gaines  livremente inspirado em um personagem real, Eugene Allen, que, em 2008, dois anos antes de sua morte, mereceu um excelente perfil no The Washington Post. Nascido no Sul violentamente segregado, Allen se treinou como garom e valete em hotis e clubes exclusivamente brancos at, em 1952, ganhar uma vaga de iniciante na Casa Branca. Atravessou oito presidncias e aposentou-se como matre d'hotel, o cargo mais alto de sua carreira, em 1986, durante a gesto Reagan. 
     As tintas da vida de Eugene Allen no so nem de longe suaves. Mas, ao pint-lo como Cecil Gaines, o diretor Lee Daniels as torna berrantes. Numa plantao de algodo, o pequeno Cecil v o patro estuprar sua me e assassinar seu pai. A me do patro, penalizada, leva Cecil para a casa-grande para trein-lo nas artes do obsquio como "negro de casa" (um epteto desagradabilssimo que, no ingls original, seria ainda mais ofensivo). Rapaz, Cecil decide dar o fora dali. Desempregado e faminto, quebra a vitrine de uma confeitaria. Por sorte,  descoberto no pelo proprietrio branco, mas pelo gerente negro. Numa das raras cenas potentes de O Mordomo,  esse veterano interpretado por Clarence Williams III quem ensina a Cecil a importncia da duplicidade: uma face amigvel para os brancos, outra, a real, s entre os seus. 
     Em teoria,  esse o tema central do filme. A trajetria de Cecil  ao mesmo tempo oposta e complementar ao pano de fundo contra o qual ela se desenrola, o da luta pelos direitos civis: o mordomo  um exemplo acabado de subservincia ao poder branco; mas  tambm um integrante em ascenso de uma cada vez mais populosa classe mdia negra, a base concreta necessria ao sucesso e  permanncia das eventuais conquistas desse movimento. Na outra cena forte e instigante do filme, Louis (David Oyelowo), o primognito rebelde do mordomo, ouvir do reverendo Martin Luther King que servidores domsticos como Cecil so um componente fundamental e em grande medida subversivo: so eles que, no dia a dia, revertem esteretipos, cunhando para a Amrica branca o conceito de uma Amrica negra produtiva, confivel e imbuda dos mesmos preceitos fundadores da nao. Mal diz essas palavras que so, hoje, ainda mais subversivas e desconceitantes do que soariam em 1968, King sai na sacada do hotel em que o grupo est hospedado, em Memphis, para receber o tiro fatal. 
     Esse cacoete de colocar os personagens sempre no canto do quadro histrico e ento faz-los influir neste de maneira decisiva  um dos mais ingnuos e desajeitados recursos da construo dramtica. Outro cacoete preguioso  maquiar atores conhecidos como figuras verdicas e pedir deles imitaes: Robin Williams como Eisenhower, James Marsden como Kennedy, Jane Fonda como Nancy Reagan, Liev Schreiber como Lyndon Johnson, John Cusack como Nixon  a impresso  a de um museu de cera animado. Lee Daniels, alm disso, no dirige de fato seus atores, mas deixa cada intrprete sair correndo com seu papel na direo que mais lhe agrade. Forest Whitaker  todo preciso; Oprah Winfrey, no papel de sua mulher insatisfeita, rene os piores vcios daquelas interpretaes exageradas que Susan Hayward ou Katharine Hepburn entregavam na dcada de 50. Oyelowo, como Louis, parece ora petulante, ora desconfortvel na fantasia de radical dos Panteras Negras com que a certa altura o vestem. 
     No h como negar as intenes sinceras de O Mordomo. Mas ficaria mais fcil engolir o sentimentalismo e a demagogia de Lee Daniels se, primeiro, ele j no tivesse demonstrado em Preciosa que  capaz de prescindir desses golpes indignos; e, depois, se os ltimos dez minutos de filme no fossem dedicados  santificao de Barack Obama. No desfecho, finalmente, revela-se a razo de ser do filme: a vida real de Eugene Allen virou a vida fictcia de Cecil Gaines apenas para que Daniels e Oprah, que produz o firme, pudessem fazer mais um pouco de claque para seu amigo.  incalculvel o avano representado pela eleio, como chefe de Estado, de um negro nem cinco dcadas depois da luta renhida que os negros tiveram de travar para adquirir os direitos bsicos garantidos pela Constituio. Mas apresentar um homem em particular como a culminao ltima e acabada dessa luta e como a corporificao da Presidncia, a instituio,  uma manobra capciosa, j que para execut-la  necessrio glosar certos fatos bsicos e incmodos  como o de ser este um presidente que vigia os prprios cidados, tolhe a imprensa como pode e conduz de forma divisiva e individualista o processo poltico. Como Obama, enfim, O Mordomo no  bem o que aparenta ser. 


9#6 VEJA RECOMENDA
DVDs
OS CROODS (THE CROODS, ESTADOS UNIDOS, 2013. Fox)
 O mamute, a preguia-gigante, o tigre-dentes-de-sabre: embora antropomorfizados, os animais dos quatro filmes da srie A Era do Gelo so decalcados de criaturas pr-histricas que existiram de fato. Um dos grandes baratos de Os Croods est na sua fauna delirante, sem nenhum compromisso com a verossimilhana cientfica: baleias terrestres, bandos de aves que agem como piranhas, cachorros com rabo de lagarto, felinos gigantescos e multicoloridos. Muitos desses animais so predadores ferozes, dos quais os cada vez mais raros seres humanos tem poucas chances de escapar. A famlia Crood tem sobrevivido graas ao receiturio do patriarca Grug: tenha sempre muito medo. Mas a adolescente Eep no quer mais viver reclusa em uma caverna escura. O embate de pai e filha  precipitado por deslocamentos continentais, com muitos terremotos espetaculares. O conflito geracional est mais bem explorado em outro filme do mesmo estdio DreamWorks  Como Treinar o Seu Drago. Mas Os Croods  uma animao de ensandecida criatividade visual, com sequncias de ao que atualizam a pancadaria humorstica do Papa-Lguas.

O BRASIL DEU CERTO. E AGORA? (BRASIL, 2013. CULTURAMAIOR)
 Logo no incio deste esclarecedor documentrio, os entrevistados aparecem para afirmar que, sim, o Brasil deu certo. Ento, aos poucos, comea a surgir uma nota de reticncia. "Mais ou menos", diz Prsio rida, ex-presidente do Banco Central e um dos idealizadores do Plano Real. "Dependendo do que se entenda por 'deu certo'", pondera o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Fica estabelecido o tom de O Brasil Deu Certo. E Agora?: otimismo, sim, mas com cautela. Conduzido pelos depoimentos de trs ex-presidentes da Repblica, doze ex-ministros, sete ex-presidentes do Banco Central e alguns especialistas, o filme faz uma reviso sucinta mas eficiente da histria econmica do Brasil, detalhando, sobretudo, o perodo que vai da ditadura militar at hoje. Idealizado pelo economista Malson da Nbrega, ex-ministro da Fazenda e colunista de VEJA, O Brasil Deu Certo reconta as crises e turbulncias brasileiras pela tica de quem esteve no centro das decises. L esto o ex-ministro Delfim Netto relembrando o acachapante aumento do preo do petrleo nos anos 70 e Prsio Arida contando como o Real finalmente debelou a hiperinflao que infelicitava o pas.

DISCOS
SAY THAT TO SAY THIS, TROMBONE SHORTY (UNIVERSAL)
 O cantor, trompetista e trombonista Trombone Shorty  o melhor produto de exportao musical de Nova Orleans em dcadas. Troy Andrews, seu verdadeiro nome, no apenas respeita as tradies locais (ele vem de uma famlia de msicos da cidade sulista) como envenena seu jazz/soul com elementos de rock pesado e msica eletrnica  em suas performances, faz citaes de Rage Against the Machine e Nine Inch Nails. Say That to Say This  o terceiro disco de Shorty e traz uma mudana importante. Raphael Saadiq (Earth, Wind & Fire, Mary J. Blige) assumiu a produo em substituio a Ben Ellman. A misso de Saadiq foi incluir elementos do R&B contemporneo na mistura furiosa de Shorty. Tarefa plenamente realizada, como mostra a balanada Long Weekend. O novo produtor, no entanto, no ousou diminuir o poder de ataque de Shorty e sua banda. Eles continuam pesados e cheios do groove tpico do funk de Nova Orleans, como se pode notar no instrumental da faixa-ttulo e na regravao de Be My Lady, cover da balada dos Meters que contou com os integrantes originais do grupo  eles no se reuniam desde o fim dos anos 70. 

O GLORIOSO RETORNO DE QUEM NUNCA ESTEVE AQUI, EMICIDA (LAB FANTASMA)
 Este  o primeiro disco individual de Leandro Roque de Oliveira, o Emicida. depois de algumas mixtapes e um disco ao vivo com o rapper Criolo. Classific-lo apenas como um lbum de hip-hop, no entanto, no faz justia a sua qualidade. O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui traz a essncia do rap, seja na crtica social e nos relatos do dia a dia da periferia, seja nos samples e batidas. Mas  mais variado musicalmente: as rimas do compositor casam com samba, R&B e rock. H encontros saborosos, como o de Emicida com o sambista Wilson das Neves, em uma cano estupidamente acusada de machismo por grupos feministas. As melhores letras so aquelas em que Emicida adota um tom confessional. Crisntemo fala de crianas rfs e lembra o assassinato do pai do rapper, narrado em um comovente depoimento de dona Jacira, me de Emicida. O compositor assume a faceta de pai carinhoso na doce Sol de Giz de Cera (com vocais de Tulipa Ruiz e de Estela, filha de Emicida). E vira romntico em Alma Gmea, com uma batida de R&B americano. Outra grande cano  Zoio, que entrou na trilha da novela Sangue Bom, com uma letra bem-humorada sobre a inveja.

LIVRO
CAF COM LUCIAN FREUD, DE GEORDIE GREIG (TRADUO DE WALDA BARCELLOS; RECORD; 308 PGINAS; 49 REAIS)
 Maior retratista da arte contempornea, Lucian Freud (1922-2011), como os medalhes da MPB, tinha averso a bigrafos. Depois de ler, desgostoso, uma biografia feita com sua autorizao expressa, pagou ao escritor para que ela no fosse publicada. Ao primeiro contato com o jornalista ingls Geordie Greig, disse que a perspectiva de conceder uma entrevista lhe causava nusea. Com jeito, no entanto, Greig domou a fera. Caf com Lucian Freud  o resultado de conversas realizadas no restaurante preferido do pintor, em Londres, ao longo de seus dez ltimos anos de vida. O livro  um relato elegante e saboroso, recheado de impresses e "causos" que dizem muito sobre a personalidade do biografado. Nascido na Alemanha e naturalizado ingls, o pintor conta pormenores da convivncia com o av, Sigmund Freud. O livro passeia, ainda, pela vida bomia de Lucian Freud, um grande mulherengo, e fala de seu vcio em jogo. Detalhes da vida privada que iluminam o artista. 


9#7 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. A Casa de Hades. Rick Riordan. INTRNSECA
2. A Culpa  das Estrelas.  John Green. INTRNSECA 
3. Cidades de Papel. John Green. INTRNSECA
4. Inferno.  Dan Brown. ARQUEIRO
5. O Teorema Katherine. John Green. INTRNSECA
6. O Silncio das Montanhas.  Khaled Hosseini. GLOBO
7. O Pequeno Prncipe. Antoine de Saint-Exupry. AGIR
8. O Ladro de Raios. Rick Riordan. INTRNSECA
9. O Lado Bom da Vida. Matthew Quick. INTRNSECA
10.   Quem  Voc, Alasca?. John Green. MARTINS FONTES

NO FICO
1. Nada a Perder 2. Edir Macedo. PLANETA DO BRASIL
2. 1889. Laurentino Gomes. O GLOBO 
3. Carlos Wizard  Sonhos No Tm Limites. Igncio de Loyola Brando. GENTE
4. Sonho Grande. Cristiane Correa. PRIMEIRA PESSOA 
5. O Mnimo que Voc Precisa Saber para No Ser um Idiota. Olavo de Carvalho. RECORD 
6. A Graa da Coisa. Martha Medeiros. L&PM
7. Guia Politicamente Incorreto da Histria do Mundo. Leandro Narloch. LEYA BRASIL 
8. 1822. Laurentino Gomes. NOVA FRONTEIRA 
9. 1808. Laurentino Gomes. PLANETA 
10. Holocausto Brasileiro. Daniela Arbex. GERAO EDITORIAL. 

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Kairs.  Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM
2. Eu No Consigo Emagrecer.  Pierre Dukan. BEST SELLER 
3. Casamento Blindado.  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL
4. O Monge e o Executivo.  James Hunter. SEXTANTE 
5. Receitas Dukan. Pierre Dukan. BEST SELLER
6. Desperte o Milionrio que H em Voc. Carlos Wizard Martins. GENTE
7. O Poder do Hbito. Charles Duhigg. OBJETIVA 
8. Quem Me Roubou de Mim? Fbio de Melo. CANO NOVA 
9. Nietzsche para Estressados. Allan Percy. SEXTANTE
10. Novos Negcios no Brasil. Silvio Meira. CASA DA PALAVRA


9#8 J.R. GUZZO  CR OU MORRE
     E se de repente, um dia desses, ficasse demonstrado por A + B que o grande problema do Brasil, acima de qualquer outro,  a burrice? Ningum est aqui para ficar fazendo comentrios alarmistas, prtica que esta revista desaconselha formalmente a seus colaboradores, mas chega uma hora em que certas realidades tm de ser discutidas cara a cara com os leitores, por mais desagradveis que possam ser.  possvel, perfeitamente, que estejamos diante de uma delas neste momento: achamos que a me de todos os males deste pas  a boa e velha safadeza, que persegue cada brasileiro a partir do minuto em que sua certido de nascimento  expedida pelo cartrio de registro civil, e o acompanha at a entrega do atestado de bito, mas a coisa pode ser bem pior que isso. Safadeza aleija,  claro, e sabemos perfeitamente quanto ela nos custa  basicamente, custa todo esse dinheiro que deveria estar sendo aplicado em nosso favor mas que acaba se transformando em fortunas privadas para os amigos do governo, ou  jogado no lixo por incompetncia, preguia e irresponsabilidade. Mas burrice mata, e para a morte, como tambm se sabe, no existe cura. Ela est presente pelos quatro cantos da vida nacional.  Um pas que tem embargos infringentes, por exemplo,  um pas burro  no pode existir vida inteligente num sistema em que, para cumprir a lei,  preciso admitir a possibilidade de processos que no acabam nunca. Tambm no h atividade cerebral mnima em sociedades que aceitam como fato normal trens que viajam a 2 quilmetros por hora, a exigncia de firma reconhecida, o voto obrigatrio e assim por diante. A variedade a ser tratada neste artigo  a burrice na vida poltica. Ela  especialmente malvada, pois age como um bloqueador para as funes vitais do organismo pblico  impede a melhora em qualquer coisa que precisa ser melhorada, e ajuda a piorar tudo o que pode ser piorado. 
     A manifestao mais maligna desse tipo de estupidez  a imposio, feita pelo governo, e a sua aceitao passiva, por parte de quase todos os participantes da atividade poltica brasileira, da seguinte ideia: no Brasil de hoje s existem dois campos. Um deles, o do governo, do PT, da presidente Dilma Rousseff e do ex-presidente Lula,  o campo do "bem"; atribui a si prprio as virtudes de ser a favor da populao pobre, da verdadeira democracia, da distribuio de renda, da independncia nacional e tudo o mais que possa haver de positivo na existncia de uma nao. , em suma, a "esquerda". O outro, formado automaticamente por quem discorda do governo e dos seus atuais proprietrios,  o campo do "mal". A ele a mquina de propaganda oficial atribui os vcios de ser a "elite", defender a volta da escravido, conspirar para dar golpes de Estado, brigar contra a reduo da pobreza e apoiar tudo o mais que possa haver de horrvel numa sociedade humana. , em suma, a "direita". O efeito mais visvel dessa prtica  que se interditou no Brasil a possibilidade de haver um centro na vida poltica. Ou voc est com Lula-Dilma ou vai para o inferno; "cr ou morre", como insistia a Inquisio da Santa Madre Igreja. 
     Essa postura  um insulto  capacidade humana de pensar em linha reta, que continua sendo a distncia mais curta entre dois pontos. O Brasil no  feito de extremos: isso simplesmente no existe em nenhum pas democrtico do mundo. Abolir o espao para um centro moderado  negar s pessoas o direito de pensar com aquilo que lhes parece ser apenas bom-senso, ou a lgica comum. Por que o cidado no poderia ser, ao mesmo tempo, a favor do Bolsa Famlia e contra a conduta do PT no governo?  dinheiro de imposto; melhor dar algum aos pobres do que deixar que roubem tudo. (O programa, alis, foi criado por Fernando Henrique; de Jlio Csar para c, passando por Franklin Roosevelt, dar dinheiro ou comida direto ao povo  regra bsica de qualquer manual de sobrevivncia poltica.) Qual  o problema em defender a legislao trabalhista e, ao mesmo tempo, achar que quem rouba deve ir para a cadeia? O que impediria algum de ser a favor do voto livre e contra o voto obrigatrio? Nada, a no ser a burrice que obriga todos a se ajoelharem diante do que o PT quer hoje, para no serem condenados como hereges.  por isso que no Brasil 2013 Fernando Gabeira, Marina Silva e tantos outros que querem pensar com a prpria cabea so de "direita", segundo os propagandistas do governo. J Paulo Maluf, Jos Sarney etc. so de esquerda. 
     Vida inteligente? 


